Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 62 - 64

28 de junho – SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

Pedro e Paulo, colunas da Igreja

I. INTRODUÇÃO GERAL

Neste dia, celebramos, jubilosos, dois pilares de nossa fé e de nossa Igreja, os santos apóstolos Pedro e Paulo. Ambos, de maneiras e caminhos diferentes, congregaram a única família de Cristo. Por serem coroados pela mesma fé e pelo mesmo martírio, recebem, nesta liturgia, igual veneração e glória.

Simão Pedro era pescador em Betsaida. Foi André, seu irmão, que lhe comunicou a Boa Notícia (“Encontramos o Messias”) e o conduziu até Jesus (Jo 1,40-42). Mais tarde, Pedro deixa Betsaida e estabelece-se em Cafarnaum (Mc 1,21.29). O Senhor vai até a casa de sua sogra e a cura (Mc 1,29-31). Pedro é o personagem principal da pesca milagrosa (Lc 5,1-11). Em Cesareia de Filipe, ele confessa a fé em Jesus como o Cristo, Filho do Deus vivo. Está na transfiguração, no monte (Mc 9,2-8), e contempla a face gloriosa do Cristo. Depois, é uma das primeiras testemunhas da ressurreição: vê o sepulcro vazio (Jo 20,6) e presencia uma especial aparição do Ressuscitado (Lc 24,34).

Saulo, depois chamado de Paulo, é, por sua vez, considerado o apóstolo dos gentios, uma vez que anunciou Cristo a outras nações, fora do horizonte judaico. É natural de Tarso da Cilícia, atual Turquia, e é o autor de um número considerável de textos no Novo Testamento. Desfrutava de um privilégio raro: tinha cidadania tanto judaica quanto romana. Estudou em Jerusalém, aos pés do mestre fariseu Gamaliel (At 22,3). Paulo era perseguidor tanto da Igreja nascente quanto dos primeiros cristãos. Estava presente na morte de Estêvão, o primeiro mártir cristão, e a apoiou (At 7,58-8,3). Ele se converte no caminho para Damasco, quando o próprio Senhor ressuscitado lhe aparece. Trata-se de uma cena paradigmática, pois passa de perseguidor a apóstolo do Senhor.

Paulo realiza três grandes viagens missionárias e uma quarta como prisioneiro, todas narradas entre os capítulos 13 e 28 dos Atos dos Apóstolos. Em sua primeira viagem, Paulo está com Barnabé e evangeliza Chipre e uma porção da Ásia Menor. Em sua segunda viagem missionária, está com Silas e Timóteo e visita Filipos, Tessalônica, Corinto e Atenas, fundando e confirmando várias comunidades. Sua terceira viagem tem como foco a cidade de Éfeso – por lá fica mais ou menos três anos. Sua última viagem missionária é para Roma, onde será martirizado; o apóstolo vai como prisioneiro.

Que pela intercessão de ambos, Pedro e Paulo, os santos apóstolos da Igreja, possamos permanecer perseverantes na fé e na fidelidade a Cristo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (At 12,1-11)

O livro dos Atos dos Apóstolos é a segunda parte de uma grande obra de Lucas – a primeira parte é o texto evangélico que recebe seu nome. Poderia ser chamado também de Atos de Pedro e Paulo, devido ao protagonismo que os dois apóstolos recebem nesse escrito. Encontramo-nos, desse modo, com a parte da história da salvação que sucede à morte e ressurreição de Jesus: o que aconteceu com os seguidores do Senhor; como rezavam e como faziam memória de sua Páscoa; como as primeiras comunidades surgiram e como se organizavam, por exemplo.

O trecho proposto a nós nesta liturgia, em linhas gerais, fala-nos do martírio de Tiago Maior e da libertação de Pedro. A Igreja nascente vive tempos de perseguição, medo e violência. O rei Herodes Agripa mira a comunidade de Jerusalém e mata Tiago Maior, o responsável por aquela Igreja – desse modo, entendemos que a vida e a morte de Cristo se refletem no caminho de seus seguidores.

Pedro é preso nessa mesma cena. Chama-nos a atenção o fato de que “a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (v. 5). A comunidade que reza por um de seus membros expressa, também, o sinal de unidade, o vínculo de comunhão e a força da oração.

2. II leitura (2Tm 4,6-8.17-18)

O texto da segunda leitura, tirado da segunda carta a Timóteo, é composto de duas partes principais, a saber: o testamento espiritual do apóstolo Paulo e algumas recomendações finais e saudações. Nesse livro, Paulo demonstra já estar em idade avançada – “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida” (v. 6) – e transmite ao seu jovem sucessor, Timóteo, tesouros espirituais confiados por Deus a ele.

Na primeira parte do trecho, é importante ressaltar a consciência do apóstolo sobre sua vida e ministério: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (v. 7). Paulo enfrentou inúmeras situações de conflito, violência e perseguição, por exemplo, mas permaneceu fiel ao chamado do Senhor, foi guardião e defensor da fé recebida, além de grande anunciador e testemunha do Evangelho de Jesus. Sentindo as forças esmorecer, deseja que Timóteo dê continuidade à missão.

Chama-nos ainda a atenção o v. 8, que pode ser lido em chave escatológica. Algumas palavras e expressões nos saltam aos olhos: “coroa da justiça”, “justo juiz”, “naquele dia”, “todos os que esperam sua manifestação gloriosa”. Paulo é consciente de que sua vida não findará com a morte; ele está com os olhos, a mente e o coração voltados para as realidades últimas e definitivas, ao seu destino final, à plenitude da história. Deus se manifestará gloriosamente para nos salvar em seu amor e misericórdia.

Já na segunda parte do texto, o apóstolo apresenta algumas informações de cunho pessoal. Paulo, na verdade, foi um grande imitador de seu Mestre, Jesus Cristo. O Senhor foi seu refúgio, proteção e fortaleza em todos os momentos, também nos mais difíceis de sua vida e ministério. Ele fez o Evangelho ressoar a todas as nações – cumprindo o mandato de Jesus à Igreja nascente, por ocasião de sua ascensão: “Vós sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, Samaria e até os confins do mundo” (At 1,8). A mensagem cristã de salvação tem alcance universal, e Paulo tem papel decisivo nessa empreitada.

3. Evangelho (Mt 16,13-19)

O Evangelho que escutamos, segundo São Mateus, radica-se essencialmente na profissão de fé efetuada por Pedro. O chefe do grupo apostólico reconhece a messianidade de Jesus; por isso, será pedra de arrimo, encosto e suporte para seus irmãos. O trecho de hoje é precedido pelas querelas suscitadas pelos judeus, principalmente fariseus e saduceus. Num cenário de incredulidade, desconfiança e maldade, Pedro, na expressão de sua fé, traz luz, clareza e discernimento a toda essa situação.

Inicialmente, Jesus questiona seus discípulos sobre a opinião das pessoas sobre ele. Melhor dizendo, deseja saber quem as pessoas acham que ele é. Está em jogo a identidade de Jesus. E parece que a resposta ganha ares de imprecisão: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). O texto não nos dá essa informação, mas parece que Jesus fica, de certo modo, insatisfeito com a resposta. Voltando-se ao grupo dos doze, dirige-lhes a mesma pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15). Simão Pedro toma a palavra e faz bela e profunda profissão de fé, paradigmática para esse texto evangélico, de modo específico, mas para todo o povo cristão, de modo geral: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.

Pedro reconhece em Jesus sua esperança de vida e salvação; não só dele, mas de todo Israel. Jesus é o Messias aguardado e esperado pelo povo veterotestamentário, e anunciado como promessa pelos profetas. É o Cristo, o Messias, nosso salvador/libertador. A expressão de Pedro é um dos focos deste texto, mas a resposta de Jesus também é digna de atenção. O Senhor proclama-o bem-aventurado, pois a origem dessa sua profissão de fé não está assentada em acúmulos de conhecimento ou de elocubrações racionais: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17b). É somente com as lentes da fé que o verdadeiro discípulo de Jesus o reconhecerá como seu Senhor e Salvador.

Desse diálogo vem uma missão. Pedro recebe o primado do grupo apostólico, tornando-se o chefe dos doze. Pedro, que quer dizer “pedra”, será como que um arrimo para a Igreja nascente. Além disso, recebe o poder das chaves do próprio Jesus: “Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terá será desligado nos céus” (v. 19).

III. Pistas para reflexão

Levar a comunidade a refletir sobre a fé, vivida com perseverança, constância, autenticidade e verdade. Apresentar-lhe o martírio como caminho que a fé alcança até as últimas consequências. Destacar a figura dos apóstolos Pedro e Paulo como modelo e exemplo para todos nós. Propor à comunidade, especialmente hoje, a oração pelo Santo Padre, o papa, sucessor de Pedro. Suscitar em todos o desejo de que o ardor missionário, a exemplo de Paulo, possa sempre integrar nosso caminho de vida e de fé.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]