“A paz esteja convosco! Recebei o Espírito Santo”
Pentecostes é a vida no Espírito; não se resume a apenas um tempo, mas é experiência constante. Ela hoje se expressa liturgicamente para dizer que vivemos sob a moção do Espírito. A festa, per se, corresponde a uma solenidade antiga, celebrada no contexto hebraico com o nome de Shavuot. Antes da dominação grega, era conhecida como festa das Semanas ou das Colheitas, celebrando, cinquenta dias depois da Pessah (Páscoa), a colheita da cevada e encerrando-se com a colheita do trigo (Dt 34,22; Nm 28,26 e Dt 16,10). Estava ligada também à Lei dada a Moisés na montanha do Horeb. Diz Levítico: “[…] contareis sete semanas completas. Contareis cinquenta dias até o dia seguinte ao sétimo sábado” (23,15-16). A festa, que inicialmente tem um caráter agrícola, vai sendo ligada a aspectos históricos e teológicos e, no NT, corresponde ao derramamento do Espírito Santo sobre os apóstolos, dando início à Igreja (At 2,1). Na primeira leitura, a Igreja recorda o momento especial de Pentecostes, que evoca a diversidade de línguas que anunciam o Evangelho, a mensagem de Jesus. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo se dirige aos coríntios, enfatizando o mistério da diversidade que constitui a Igreja, cujo fundamento é Jesus Cristo, o Senhor. Pelo Espírito é que o cristão proclama o senhorio de Jesus. No Evangelho, João recorda a aparição de Jesus no primeiro dia da semana e seu anúncio de paz, o sopro do Espírito Santo e a incumbência da Igreja de ser instrumento de reconciliação no mundo. A Igreja tem, assim, a importante missão de ser sacramento de reconciliação no meio da humanidade.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 2,1-11)
Pentecostes é símbolo da alegria do Espírito que se derrama sobre os discípulos do Senhor e os faz protagonistas do anúncio do Evangelho. A unção do Espírito não é para tornar alguém mais rico de graça, mas para torná-lo merecedor de ser chamado de apóstolo, isto é, enviado a uma missão: evangelizar. A primeira leitura indica que, chegada a ocasião histórica da festa de Pentecostes, festa de Shavuot, em cenário judaico, estavam reunidos em Jerusalém os discípulos de Jesus. Para que a Igreja inicie sua missão, é imprescindível que esteja unida e reunida (v. 1). Do céu vem um barulho que enche os espaços do cenáculo com a presença do Espírito (v. 2). O v. 3 diz serem línguas de fogo. O fogo sempre foi, biblicamente, sinal da presença de Deus (Ex 3,2; 1Rs 18,19-39). Foi assim na sarça ardente, foi assim com o profeta Elias, no Horeb. As línguas de fogo pousaram sobre os apóstolos reunidos, mostrando que cada um participa dessa comunicação, que não é exclusiva de alguns, mas é comum. Os discípulos, cheios do Espírito Santo, começaram a falar em novas línguas (hetérais glossais), uma espécie de glossolalia (falar em línguas, v. 4). As línguas representam o dom fundamental do Espírito: a comunicação. Significa que o Evangelho deve ser comunicado por todos e todos são responsáveis por seu anúncio. O v. 5 diz que estavam em Jerusalém judeus residentes, homens piedosos de todas as nações, por causa da diáspora. Como era a ocasião de uma das festas de peregrinação, os judeus que habitavam outros lugares do orbe romano vinham para as solenidades e lá permaneciam. Após o barulho (v. 6), todos ficaram confusos, pois ouviam os discípulos falar na língua própria de cada um.
Pentecostes representa, assim, o avesso da torre de Babel, na qual se constatava uma confusão que não levava a nenhum lugar. Pentecostes é uma emanação da Palavra de Deus em outros idiomas, reunindo-os em torno da mensagem de Jesus, o Evangelho. O v. 7 apresenta a admiração dos que ouviam, pois, se os apóstolos eram todos galileus, como podiam estar falando nas línguas originais dos peregrinos? O v. 8 acentua essa dúvida. Nos v. 9-11 há um acento universalista, inspirado no midraxe rabbá, que transparece na lista dos povos presentes em Jerusalém no momento da festa. Como já mencionado, trata-se de judeus da diáspora que Lucas chama de “homens piedosos” (v. 5). A lista segue uma ordem de apresentação das nações, “começando pelos povos localizados no Oriente para chegar àqueles que vivem no Ocidente, pelos que moram no Norte, mencionando em seguida os que habitam no Sul”, como afirma Pe. Alberto Casalegno (Ler os Atos dos Apóstolos: estudo da teologia lucana da missão, São Paulo: Loyola, 2005, p. 111). Há em tal lista dezessete nomes de nações, povos, regiões, províncias romanas e a própria capital do império. Há judeus e prosélitos, cretenses e árabes (os que habitavam em ilhas e os do deserto). A lista quer indicar que o mundo inteiro (conhecido) está em Pentecostes e que esta é uma característica da fé cristã: a universalidade.
2. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13)
No início da segunda leitura, Paulo adverte: “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é o Senhor’, a não ser no Espírito”. Para o apóstolo Paulo, é o Espírito Santo quem autoriza todo cristão a dizer que Jesus é Kyrios, título dignitário que era atribuído ao imperador de Roma. Cristo é Senhor, tendo dignidade superior por sua filiação divina, por sua eleição. É ainda o Espírito que permite à Igreja a diversidade de dons e a diversidade de ministérios/serviços. Um é o Senhor, mas diversa é sua Igreja, que vive na unidade da Trindade. Assim, Cristo é, para Paulo, o centro de toda a vida cristã, em sua diversidade. O Espírito é dado a todos (v. 7) em vista do bem comum, pois o Espírito é aquele que serve para unir a Igreja em seu propósito cooperativo à salvação anunciada e vivida por Jesus. A eclesiologia paulina reflete nesse capítulo a natureza da Igreja, o mistério de Deus em Cristo, o Filho, pela ação do Espírito, e sua missão: ser instrumento de salvação, sacramento do Reino de Deus no meio da humanidade.
Dessa maneira, a Igreja tem sua missão aliada e geneticamente associada à missão de Jesus Cristo, que vem para salvar todo o gênero humano. A Igreja é como mãe que coopera no projeto de Deus de levar seus filhos e filhas à salvação. O tema acerca da diversidade dentro da Igreja perpassa esse capítulo como fio condutor. Tal diversidade é símbolo de uma polissemia espiritual, na qual o Espírito Santo é o maior protagonista. Ele garante que todos assumam papéis e cumpram missões sem que ninguém se sinta menos importante, inferior, nem que ninguém se sinta melhor, superior, por aquilo que desempenha na vida e no coração da comunidade eclesial. A imagem do corpo é utilizada para compreender a Igreja, cuja cabeça é Cristo e cujos membros são todos os batizados e batizadas. Paulo afirma, no v. 13, que todos são batizados no mesmo Espírito, mesmo que sejam judeus ou gregos, escravos ou livres. Todos formam um único corpo e bebem do mesmo Espírito, como elemento unitivo.
3. Evangelho (Jo 20,19-23)
Num cenário permeado pelo medo, realidade fortemente humana, tomada pelo luto e pela desolação em razão da morte cruel de Jesus na cruz, somente amparada espiritualmente pela promessa de sua ressurreição, a comunidade está reunida e torna-se espaço para que o Senhor possa se manifestar. O dizer enfático e duplicado “A paz esteja convosco” confirma que Jesus venceu a morte e que os grilhões desta já não o prendem no Sheol da morte. Ele está vivo e presente no meio deles, como está vivo e presente em nossa Igreja hoje, mediante seu Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho. O Espírito, que no AT pairava sobre as águas, agora agita nossa fé, rompendo com a acédia, o medo e a imobilidade, fazendo que os discípulos no passado e nós, discípulos no presente, participemos de sua graça: a certeza de que a força pulsional da vida transcende, no olhar da fé, a força pulsional da morte.
O gesto de Jesus de mostrar as mãos e o lado (v. 20) evidencia que ele é o Crucificado, mas agora é o Ressuscitado. Há em seu corpo a continuidade em meio à descontinuidade. Na teologia do corpo do Ressuscitado há registros e camadas da experiência da encarnação que geram dor e sofrimento, mas há a manifestação de uma amorosa presença de Deus que supera toda morte, toda marca deliberada de ódio que ficou indelével na vida de Jesus. O fato de aparecer aos discípulos, num contexto de medo, e anunciar-lhes o Shalom, a plenitude do amor de Deus, é altamente importante, indicando que o caminho-destino dos discípulos não será distinto. Eles enfrentarão a crueldade, a indiferença, o aniquilamento de seus corpos, triturados pelo ódio, mas Deus, em sua infinita bondade e Espírito, haverá de ressuscitá-los, bem como a todos nós, que em Cristo e em seu Pai, pela força do Espírito, cremos e esperamos. Crer é esperar, é esperançar a vida no horizonte de um novo devir, de uma realidade que sustenta a presente imagem fantasiosa da vida que carregamos como pesado fardo em nossa história. A resposta dos discípulos é antropológica e de fé, eles se alegraram ao verem o Senhor.
O v. 21 repete o dizer de Jesus: “A paz esteja convosco”, acrescentando um envio: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. O v. 22 mostra Jesus soprando sobre eles o Espírito Santo, fazendo-nos lembrar a Ruah de Deus sobre as águas (Gn 1,2), como acima mencionado. Trata-se de nova criação, agora da Igreja, a Nova Humanidade em Cristo. A Igreja em Pentecostes é chamada a ir ao mundo, enviada em missão e constituída para criar novas relações nas quais o amor seja a força unitiva e transformadora, à luz daquilo que Jesus experimentou a partir da ressurreição: a certeza de um amor que salva. O v. 22 ressalta: “Recebei o Espírito Santo” e concede uma missão: a reconciliação. A Igreja agora surgida do sopro espiritual de Jesus ressuscitado é a comunidade dos reconciliados para promover a reconciliação. É chamada a perdoar, doar totalmente o amor que cura, liberta e salva o sujeito humano das ciladas do egoísmo e de uma vida vivida na autossuficiência. O Espírito cria comunhão, une, reinventa novo modo de ser na Igreja, sustentando a conversão dos indivíduos, de seus processos e de seus vínculos (caminho da sinodalidade da Igreja).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Convidar a comunidade a viver o Pentecostes, contemplando em cada irmão e irmã a presença do Espírito Santo. Todos e todas somos chamados a anunciar a Jesus, Salvador da humanidade. Estimular a comunhão, a participação e a missão na perspectiva da tenda alargada, símbolo da Igreja, chamada a ser um espaço acolhedor para todos e todas. Meditar sobre a ação do Espírito Santo no presente mundo, que vive experiências de dor e angústia e é chamado a renovar sua esperança em busca de construir uma sociedade mais justa e fraterna, fundamentada no mandamento do amor.
Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhorado Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]

