Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 50 - 52

31 de maio – SANTÍSSIMA TRINDADE

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

Deus uno e trino, comunidade de amor

INTRODUÇÃO GERAL

A Santíssima Trindade é a melhor comunidade! Dessa frase entendemos o que diz o filósofo Gaston Bachelard: “No princípio está a relação”. A beleza da Trindade consiste no mistério do Amor. O Pai é aquele que ama, o Filho é o amado e o Espírito Santo é o amor, a substância mesma de Deus. Nessa “ciranda”, o dinamismo eterno é o amor. Assim, entendemos o que Santo Agostinho outrora falou: “Se vês a caridade, aí vês a Trindade” (Tratado De Trinitate). O mistério celebrado nesta solenidade é o alto das comemorações pascais; trata-se de um mistério vivido e celebrado no cotidiano da vida da Igreja, sobretudo nos domingos. A bem da verdade, é o Mistério por excelência, pois nele se vê, à luz da fé, o mistério do Criador, do Redentor e do Santificador, nas missões trinitárias. Deus é comunidade que vive e dispensa o amor, e a Igreja é chamada a ser ícone da Trindade. Na primeira leitura, testemunhamos a ação de Deus, que desce ao encontro de Moisés, o qual, por sua vez, ora a Deus, clamando sua misericórdia em vista da dureza do coração de seu povo. Na segunda leitura, em tom admoestador, Paulo convida a comunidade coríntia a viver na alegria, purificando os corações para o amor, vivenciando a paz em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. No Evangelho, contemplamos a missão soteriológica de Deus: ele quer salvar o mundo, por Jesus, na unidade do Espírito Santo, que nos foi dado no batismo e celebrado no domingo passado, o de Pentecostes. A comunidade joanina vive uma fé madura e intensa em Deus e nos convida a participar dessa comunhão, que tem sua fonte no Deus uno e trino.

COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ex 34,4b-6.8-9)

Moisés é profeta de Deus. Ele levanta-se quando ainda é noite, antes do amanhecer, e vai até a montanha do Senhor, o Horeb, o monte Sinai. Leva consigo duas tábuas para servir de lugar de registro para Deus gravar sua Lei (Torá – instrução). O v. 5 nos apresenta um movimento de descendimento de Deus, Ele vem para junto de Moisés e conversa com seu servo. Como no capítulo 19, Moisés faz-se mediador da aliança – BeRiT – e, ao se encontrar com Deus na montanha, ouve a proclamação divina da misericórdia e da justiça. Trata-se de uma atitude divina reveladora: Deus se faz próximo, aproxima-se de seu escolhido, Moisés. O fato de Deus descer da nuvem indica que se desvela de sua majestade. A nuvem sempre simbolizou o próprio Deus. Essa atitude agora indica que Deus abdica de seu trono, faz-se próximo, desce até sua criatura. No v. 6, enquanto Deus passava diante de Moisés, este gritou: “Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. Moisés procura nomeá-lo, na tentativa de “circunscrever” Deus em seu espaço de linguagem. Nomear é buscar apossar-se. Isso, porém, é apenas uma tentativa, pois Deus é inapreensível, por isso é mistério. O v. 8 apresenta Moisés humilde diante de Deus, inclinado diante do numinoso, do mistério que ultrapassa sua compreensão e seus olhos, que estavam buscando o Senhor. Moisés intercede por si e por todos os seus: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (v. 9). Moisés é cônscio de que seu povo é teimoso, que endureceu sua cerviz a Deus, que tem pecados e que, mesmo assim, é sua propriedade. Moisés é um líder nato que se entende frágil, mas, não obstante sua fragilidade, fala com Deus, intercede por seu povo junto a Ele, não tem medo de receber suas críticas nem de ouvir suas repreensões. Sua coragem e fé são expressões de sua capacidade de lidar com a vida e endereçar suas pulsões (seus afetos, demandas e alegrias) a Deus.

2. II leitura (2Cor 13,11-13)

A segunda leitura, pequena em extensão, mas grande em significado, é uma parênese, isto é, uma exortação que o apóstolo Paulo faz às comunidades de Corinto. Começando com um imperativo: “Alegrai-vos”, seguido de outro: “Trabalhai”, indica que a comunidade deve escutar atentamente essa palavra para mover-se na direção de uma vida espiritual, que tem como expressão primeira a alegria (chairete, de charis: graça) e, em seguida, a purificação, o aperfeiçoamento espiritual, a concórdia, o amor e a paz. A fé, para Paulo, não é somente um bem-estar pessoal, mas leva ao comunitário, ao bem compartilhado e celebrado na Eucaristia. No v. 12 a comunidade é convidada a viver a relação espiritual mediante a expressão do beijo santo (hágia filemati), o ósculo da paz. “Todos os santos vos saúdam” indica que toda a Igreja está saudando essa comunidade. “Santos” significa os que são batizados no Cristo e vivem a santidade derivada do batismo; em última instância, são todos os cristãos da comunidade. Acrescida a esse versículo está a saudação trinitária própria de Paulo e muito conhecida pelas comunidades ainda hoje, sobretudo no início das missas: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”. Às vezes, abrindo ou concluindo suas cartas com tal saudação, Paulo busca destacar que a Igreja é ícone da Trindade, vive a partir dela e por ela. A Trindade é não apenas o destino para o qual a Igreja caminha, mas também sua origem e seu meio.

3. Evangelho (Jo 3,16-18)

Belíssimo e profundo, o Evangelho é mais uma oração da fé. Trata-se de um testamento do que Deus deseja realizar pela humanidade: salvar. Chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho ao mundo para que não morra todo o que nele crer (v. 16), mas seja salvo. Amar o mundo é a missão natural de Deus. Ele só pode amar, e, se não amasse, deixaria de ser Deus. Deus é amor, afirma-nos o apóstolo João (1Jo 4,8). O amor divino tem como finalidade permitir que o mundo viva, esteja salvo. Corresponde a um amor capaz de sustentar o mundo em sua definição. Deus não enviou seu Filho ao mundo para condená-lo, mas para salvá-lo. Jesus é o mediador único e absoluto da salvação. Para Jesus, o mundo tem sentido soteriológico, pois é habitação de Deus, sua shequinah está no meio de nós.

Para o Evangelho joanino, crer é sinal de comunhão com Deus, participação na vida divina e no misterioso caminho para a eternidade. Nele, os termos “fé”, “crer” e “acreditar” ocorrem uma centena de vezes. Trata-se de Evangelho que é expressão de uma comunidade de iniciados, e não de iniciantes; de pessoas de fé madura, a qual as levou a superar os desafios internos e encontrar, nos sinais realizados por Jesus e, sobretudo, em sua palavra, que é testamento escrito, o significado para crer. Por isso, em João, Jesus está continuamente discursando acerca da fé. Não crer, para a comunidade joanina, significa estar fora da comunhão com Deus, a qual conduz o fiel à salvação, pois é pela fé que a humanidade será salva, incorporada no amor divino. Embora o texto do Evangelho não evidencie o mistério explícito da Trindade, dizer que Deus salva significa crer no Pai, o Criador, no Filho, o Redentor, e no Espírito Santo, o Santificador. Não crer já é, para a comunidade joanina, estar condenado, pois não há outro caminho salvífico senão em Cristo (Jo 14,6).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Levar a comunidade a entender que o mistério da Trindade é mais para ser vivido e celebrado que entendido e estudado. A Trindade é mistério relacional. Ajudar os fiéis a compreender que dominicalmente celebramos a Trindade, pois toda Eucaristia é ao Pai, pelo Filho, na comunhão do Espírito Santo. Proporcionar uma catequese trinitária, percebendo que o mistério fundamental de nossa fé é nossa comunhão com as pessoas divinas, Pai e Filho e Espírito Santo.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]