Roteiros homiléticos

Publicado em novembro-dezembro de 2021 - ano 62 - número 342 - pág.: 43-46

33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 14 de novembro

Por Izabel Patuzzo

Jesus anuncia o fim das forças do mal

I. Introdução geral

Estamos próximos do encerramento de mais um ano litúrgico. É um tempo propício para refletir sobre a parusia, o retorno glorioso do Senhor. Esta celebração nos fala da presença de Jesus na história de humanidade, em dupla perspectiva: em sua primeira vinda a este mundo, ele se encarnou, anunciou o Reino de Deus, morreu por nós e ressuscitou; a segunda vinda é marcada pela sua glória, pela realização da salvação plena oferecida a toda a humanidade.

Às comunidades judaicas perseguidas e desanimadas durante os tempos difíceis de dominação estrangeira no século II a.C., a primeira leitura anuncia que a chegada de novos tempos é iminente. Deus irá intervir na realidade de dominação e opressão que o povo escolhido está enfrentando. Essa é a esperança que anima o povo de Deus a permanecer fiel no sofrimento.

A segunda leitura é tirada da carta aos Hebreus, escrito que se apresenta em forma de homilia – dirigida a uma comunidade desanimada pela hostilidade dos pagãos e pelas dificuldades internas – e cujo objetivo é reavivar o entusiasmo dos discípulos.

O Evangelho proposto nesta celebração situa-nos em Jerusalém, pouco antes da paixão e morte de Jesus. Em seus ensinamentos, Jesus recorda aos discípulos que Deus fará surgir um mundo novo, de felicidade sem fim. No entanto, os discípulos precisam estar atentos para reconhecer os sinais de sua chegada.

II. Comentário dos textos bíblicos

1. I leitura (Dn 12,1-3)

O livro de Daniel retrata a situação das comunidades judaicas que viviam dispersas sob o domínio greco-romano dos dois últimos séculos antes de Cristo. Além da dominação política e econômica que oprimia o povo, outra marca desse tempo foi a imposição cultural e religiosa por parte do governo estrangeiro. A perseguição foi dura, e a intolerância dos dominadores estrangeiros, sobretudo dos macedônios, provocou profundas feridas na vida das comunidades dos judeus fiéis. Nem todos conseguiram resistir à dominação e imposição cultural e religiosa.

É nesse contexto que o livro de Daniel – cujo autor é um judeu fiel às suas tradições culturais e religiosas – dirige sua mensagem às comunidades judaicas dispersas pelo vasto império, motivando-as a resistir à imposição cultural e religiosa e preservar a fé. O profeta acredita nos valores religiosos de seus antepassados e quer mostrar aos seus concidadãos que a fidelidade aos ensinamentos da Lei mosaica e dos Profetas será recompensada pelo Senhor e os inimigos do povo serão derrotados.

Aqueles que, apesar da perseguição e do sofrimento, resistirem e permanecerem fiéis aos ensinamentos da Aliança serão destinados à vida eterna. Eles brilharão como estrelas, com um esplendor eterno. Essa é a esperança que deve animar os justos, os quais não abandonam sua fidelidade a Deus mesmo em tempos de dura provação. O autor do livro de Daniel assegura que a vida do justo será preservada e que Deus transformará todo sofrimento, conduzindo seu povo fiel a uma vida eterna. A certeza de que a vida não termina com a morte ajuda os fiéis a superar o medo e resistir com coragem, confiando no projeto de Deus em favor de seu povo eleito.

2. II leitura (Hb 10,11-14.18)

A exortação da carta aos Hebreus é dirigida a discípulos desanimados pela hostilidade dos pagãos e pelos conflitos comunitários internos. As comunidades cristãs estão mergulhadas em um clima de desânimo, cansaço e fragilidade por conta das inúmeras adversidades que tiveram de enfrentar.

Diante dessa realidade, a carta se apresenta como uma reflexão sobre o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é reconstruir a relação dos discípulos com o Pai e inseri-los no povo sacerdotal que é a comunidade cristã. O autor lembra que Jesus, ao entregar sua vida para a remissão de nossos pecados, conseguiu aproximar a humanidade do seu Criador. Jesus obedeceu a Deus em tudo e ofereceu a vida como dom de amor. Seu sacrifício, oferecido de uma só vez, libertou efetivamente a criatura humana de sua dinâmica de egoísmo e pecado, e permitiu-lhe aproximar-se de Deus com um coração renovado. Jesus propôs à humanidade um caminho novo, mudou o coração dos discípulos e os ensinou a viver em total disponibilidade para os projetos de Deus.

Ao cumprir sua missão neste mundo, Jesus sentou-se à direita de Deus para sempre. Apontou-nos, assim, o caminho para chegarmos à meta final de nossa existência: a comunhão com Deus e a pertença à família divina. Dessa forma, o autor exorta os cristãos a viver com fidelidade os compromissos assumidos no batismo.

3. Evangelho (Mc 13,24-32)

Segundo o episódio narrado no Evangelho proposto para este dia, Jesus encontra-se em Jerusalém para celebrar sua Páscoa definitiva. O evangelista apresenta o discurso escatológico de Jesus aos seus discípulos, indicando a missão da comunidade desde sua morte até o final da história humana. É um texto de difícil compreensão, porque Jesus fala em linguagem apocalíptica, isto é, por meio de imagens simbólicas. Seu objetivo é recomendar aos discípulos as atitudes a tomar diante das provações que irão enfrentar.

Jesus tem consciência de que sua missão terrena está para ser concluída. Retomando parte da tradição profético-apocalíptica, ele anuncia o fim das forças do mal, as quais se opõem ao plano de Deus e perseguem os fiéis. A batalha contra o mal será cósmica: o sol, a lua e as estrelas irão escurecer; tais sinais precederão o dia do Senhor, isto é, a vitória de Deus sobre o mal. Essa linguagem era familiar aos ouvintes de Marcos. No mundo grego e romano, o sol e a lua eram adorados como deuses, e o imperador era considerado filho do deus sol. Diante do Deus verdadeiro, porém, as falsas divindades perderiam seu brilho.

A expressão “Filho do Homem” era um título atribuído a Jesus, para proclamá-lo o Filho de Deus enviado, o Messias. Com essas expressões, a mensagem de Marcos é clara: o caminho dos discípulos será marcado pelo sofrimento e pela perseguição. No entanto, a vinda gloriosa de Jesus vai instaurar um tempo de alegria e felicidade plena para aqueles que sabem permanecer fiéis, resistir e esperar.

Aos discípulos que interrogam Jesus acerca de quando esses fatos irão acontecer, ele responde que o mais importante é confiar. Convida seus discípulos a observar a natureza; os ramos novos da figueira, como o agricultor espera nova estação. Da mesma forma, a comunidade cristã deve esperar pelos sinais de novos tempos, do anúncio da libertação, o tempo de Deus agir. Certos da vinda do Senhor e atentos aos sinais dos tempos, os cristãos a aguardam de coração aberto, para acolhê-la quando se manifestar. Não há data marcada para essa vinda, mas a comunidade acredita nas palavras e nos ensinamentos de Jesus. Ele é o Senhor que conduz a história.

III. Pistas para reflexão

Diante de tantos acontecimentos que trazem sofrimentos à humanidade, a Palavra de Deus nos vem como esperança. As sombras que marcam os tempos atuais são realidades que tocam a todos nós; muitas vezes nos desafiam, nos inquietam e nos deixam sem respostas. A mensagem desta liturgia é que Deus se faz presente nos dramas da humanidade. Ele não abandona o barco à deriva. A humanidade não caminha para um holocausto ou para a destruição. O encontro definitivo com o Senhor deve ser preparado na perseverança em meio aos desafios, conflitos, sofrimentos e provocações. Jesus não esconde que haverá
desafios.

O cristão não se entrega ao desespero diante das provações, pois acredita que Deus é o Senhor da história. Enquanto caminham neste mundo, os discípulos de Jesus não cruzam os braços, mas se envolvem ativamente na construção do Reino. Têm a convicção de que permanentemente devem dar testemunho de sua fé e que finitude, limites e imperfeições são parte da caminhada deste mundo. Para Deus, não há passado ou futuro, mas o eterno presente em que somos chamados a servir, a ser fiéis aos seus ensinamentos. Que Jesus, no seu regresso, possa encontrar uma comunidade vigilante e atuante, que traduz em ações o que sua Palavra propõe.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. E-mail: [email protected]