Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2024 - ano 65 - número 357 - pp.: 53-56

9 de junho – 10º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Ir. Izabel Patuzzo, pime*

“Quem faz a vontade do Pai é meu irmão, minha irmã e minha mãe!”

I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras novamente nos convidam a refletir sobre a identidade de Jesus e a comunhão que ele deseja estabelecer com todos aqueles e aquelas que se dispõem a fazer a vontade de Deus. São três leituras impactantes!

O livro de Gênesis, do qual é tirada a primeira leitura, traz a narrativa sobre como o pecado entra no mundo quando o ser humano não ouve a Deus, mas dá ouvidos aos outros. O pecado é contagioso de muitas maneiras, gera conflitos no mundo, e isso nunca cessará, a menos que escolhamos seguir o Senhor Deus. Muitas vezes culpamos os outros pelo pecado em vez de aceitar nossas próprias responsabilidades. O autor desse trecho do Gênesis percebe que no futuro haverá uma batalha entre o pecado e a descendência da mulher. Esse trecho é visto como uma previsão de que a salvação finalmente virá por meio da descendência da mulher.

A segunda leitura vem da segunda carta aos Coríntios. Essa carta nos diz: “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos colocará junto a vocês na sua presença”. Deus nos colocará com Cristo Jesus, mas primeiro precisa nos refazer à sua imagem, que perdemos por causa do pecado. Essa vida, para todos nós, é uma questão de permitir que Deus nos refaça. Precisamos ser pacientes. Pode ser que achemos que estamos prontos para ver Deus agora, mas, para a maioria de nós, há o reconhecimento de que ainda não estamos tão cheios de amor a ponto de simplesmente entrarmos na presença do Senhor. O texto do Evangelho segundo Marcos nos mostra que todos aqueles que desejam sentir-se parte da família de Jesus e tomar parte do caminho de seu discipulado devem estar em comunhão com ele. Sua atividade de libertação dos poderes do mal não tem nenhum vínculo com as atividades do demônio. Todos aqueles que fazem a vontade do Pai se tornam membros da família de Jesus e sabem discernir as obras de Deus das obras do maligno.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Gn 3,9-15)

A primeira leitura, tomada do livro do Gênesis, faz parte do segundo relato da criação, o único a narrar a transgressão do ser humano às diretivas de Deus para uma vida harmoniosa no jardim do Éden. O texto não consiste na narrativa de um evento histórico, e sim em um modo de perceber as origens do mal no mundo. Para compreender a mensagem do autor sagrado, é necessário ter presente seu contexto histórico, que é a quebra da harmonia do projeto de Deus para seu povo, quando entra a idolatria em Israel.

A pergunta central do relato é o questionamento que Deus dirige ao ser humano: “Onde estás?” Essa indagação não diz respeito a um lugar geográfico, e sim ao lugar existencial em que se encontra o ser humano em relação a Deus e aos que lhe são íntimos. A desobediência às orientações divinas leva a criatura humana a perder seu espaço original de convivência harmoniosa em todos os âmbitos: com Deus, com o outro e com a natureza.

As perguntas do Senhor Deus têm um propósito pedagógico: ajudar o ser humano a tomar consciência de onde está, das reais motivações de suas transgressões e das suas consequências. As respostas do homem e da mulher demonstram a tendência do ser humano a se desresponsabilizar, justificar sua conduta, sua liberdade de escolha, e se desculpabilizar, encontrar a culpa fora de si. A leitura teológica do autor sagrado consiste em evidenciar que o mal não vem de Deus, pois este proporcionou tudo de bom a toda a obra da criação, oferecendo o melhor a todas as criaturas. O mal entrou no mundo porque o ser humano se deixou influenciar pela serpente, símbolo da idolatria, da escuta aos falsos deuses.

2. II leitura (2Cor 4,13-5,1)

Assim como a leitura de Gênesis, a segunda carta aos Coríntios envolve a consciência da batalha espiritual que deve ser travada em nosso mundo e em cada um de nós pessoalmente, para que estejamos verdadeiramente prontos para “ver o Senhor como ele é” e nos tornarmos semelhantes a ele. Para muitas pessoas, hoje em dia, a vida consiste apenas em aproveitar o máximo que se consegue. Para nós, porém, que seguimos a Cristo, a vida consiste em nos tornarmos o máximo possível como ele, para que possamos refletir a glória do Pai.

Nesse texto, o apóstolo Paulo mostra com que disposição leva adiante seu ministério: onde encontra confiança em meio às tribulações e por que busca a comunhão com Deus e com os irmãos. Ele sabe em quem acreditou. Sua referência à atitude de fé advém da convicção de que o Ressuscitado não o deixa só. Paulo acredita que as tribulações do momento presente não são a palavra definitiva. Ele caminha na total confiança e esperança na vida eterna, quando estará em comunhão plena com Deus. Essa união existencial com Jesus Cristo é essencial para seu ministério apostólico. No entanto, tal união concretiza-se na comunhão eclesial, isto é, com todos os que creem em Cristo. De fato, Paulo deseja estar unido a Jesus Cristo e a todos os destinatários da carta.

3. Evangelho (Mc 3,20-35)

O texto do Evangelho está situado logo após o chamado dos doze apóstolos. Na sequência, Jesus realiza seu primeiro exorcismo. Ao entrar em confronto com o mal, já no início de seu ministério público, Jesus entra em conflito com sua própria família, segundo a narrativa do evangelista Marcos.

Uma multidão tão grande se reúne ao redor de Jesus e de seus discípulos, que eles nem conseguem ter tempo para comer. Sua família vem para levá-lo, pois, segundo o que ouvem, acreditam que ele esteja fora de si. A opinião dos escribas acerca de Jesus é que ele está possuído por satanás. Jesus os faz ver quão absurdo é o pensamento de que usa de satanás para expulsar demônios. Na verdade, é Jesus quem confronta belzebu, o príncipe dos demônios, e o vence. Portanto, a questão central da leitura é a identidade de Jesus em várias perspectivas: da multidão, dos apóstolos, de seus familiares e dos escribas. Há enorme controvérsia acerca de sua pessoa.

Jesus responde a essas controvérsias esclarecendo que todos os pecados podem ser perdoados, exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo. Assim, dá a entender que a blasfêmia contra o Espírito Santo seria negar sua verdadeira identidade divina. Tal blasfêmia origina-se na obra do diabo. Em seguida, Marcos traz novamente a família de Jesus em cena, revelando que Jesus não está irmanado por laços de sangue. No final, seus parentes não são apresentados de maneira crítica, mas estão apenas tentando vê-lo. Isso dá a Jesus a oportunidade de destacar que a família, para ele, vai muito além dos laços de sangue, pois se estende a todas as pessoas que fazem a vontade de Deus. Além disso, o relato termina com a afirmação de Jesus sobre quem é, de fato, sua família, refundando os laços familiares na obediência à vontade de Deus Pai. Para fazer parte de sua família, é essencial ter a mesma atitude dele e estar em comunhão com seu projeto de realizar o plano do Pai.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O tema central das leituras deste domingo é a reflexão acerca da identidade de Jesus. O evangelista Marcos nos mostra que, desde o início do cristianismo, os cristãos sentiram a necessidade de que a comunidade de fé tivesse muita clareza sobre quem era Jesus Cristo. Ainda hoje, essa questão continua a ser pertinente e essencial para os batizados. Para quem é membro da comunidade cristã, não pode haver dúvidas sobre quem Jesus é de fato, e as respostas ou opiniões que vêm de fora da comunidade não devem abalar nossas convicções, nossa fé e nosso pertencimento à sua família espiritual.

Fazer parte da família universal de Jesus é a vocação fundamental para os cristãos de todos os tempos. Tomar parte nessa família requer formar comunidades fraternas, centradas na pessoa de Jesus Cristo e dispostas a fazer a vontade de Deus. Para seguir Jesus Cristo, é fundamental identificar quais obras procedem de Deus Pai e quais obras pertencem ao demônio. O Espírito Santo é a fonte do discernimento das obras do bem e do mal.

O demônio pode nos envenenar com sentimentos de ódio, rivalidade, inveja, mentira, vícios destrutivos. Por isso, temos de estar sempre vigilantes, deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo. No dia a dia, isso significa não adotar como fonte de discernimento certas práticas esotéricas – por exemplo, cartomancia, horóscopos etc. – para buscar soluções para os problemas. Pelo batismo, fomos revestidos das luzes do Espírito Santo, e isso nos basta.

Ir. Izabel Patuzzo, pime*

*pertence à Congregação Missionárias da Imaculada. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção. Doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: [email protected]