Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2021 - ano 62 - número 339 - pág.: 44-46

ASCENSÃO DO SENHOR – 16 de maio

Por Izabel Patuzzo

A missão universal dos discípulos

I. INTRODUÇÃO GERAL

Na solenidade da Ascensão do Senhor, celebramos a conclusão do caminho percorrido por Jesus em sua missão terrena. Esta celebração sugere que Jesus nos deixou o testemunho de sua comunhão definitiva com o Pai e que esse é também o caminho de seus discípulos. Com a entrada triunfante de Jesus ao lado direito do Pai para partilhar de sua glória, a Igreja se enche de esperança de que ele nos precede na morada celeste, sendo esta o destino final de todo discípulo que guarda sua palavra.

O texto do Evangelho de Marcos relata que Jesus ressuscitado aparece aos seus discípulos, ajudando-os a vencer o medo e a desilusão de sua morte. O Cristo ressuscitado os envia em missão, como testemunhas de seu projeto de salvação. De junto do Pai, ele continuará a acompanhar a comunidade dos discípulos, que agora são enviados ao mundo inteiro para proclamar a Boa-nova; por meio dos discípulos, a missão de Jesus não terá fronteiras.

A primeira leitura repete a mensagem central desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o plano salvífico do Pai, entra em comunhão definitiva com ele. Quanto aos discípulos, eles não devem permanecer olhando para o céu, mas devem ir adiante, percorrendo os mesmos caminhos do Mestre. A missão de Jesus começou na Galileia e terminou em Jerusalém. A missão dos discípulos começa em Jerusalém e se estende até os confins do mundo.

A segunda leitura convida os discípulos a ter coragem e esperança, pois foram chamados à plena comunhão com Deus. Devem caminhar nessa direção, unidos como membros de um único corpo, em comunhão com Cristo, que é a cabeça. Jesus permanece no corpo que é a Igreja e, dessa forma, faz-se presente na vida de todos os discípulos de todos os tempos.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (At 1,1-11)

O livro dos Atos dos Apóstolos é dirigido às comunidades cristãs, depois que já passou a expectativa da vinda em breve de Jesus. Os discípulos já tinham a consciência de que deviam continuar a missão de Jesus no cotidiano da vida. Eles são desafiados a apresentar uma doutrina sólida em meio a crises e confrontos com as sinagogas judaicas. É nesse contexto que Lucas tenta animar as comunidades. Agora são os cristãos que têm a tarefa de viver e apresentar o projeto iniciado por Jesus, é a Igreja que deve concretizar na história a Boa-nova por ele anunciada. Os cristãos são chamados a redescobrir seu papel de construtores de uma nova realidade, de um mundo mais fraterno e justo, sendo fiéis a tudo que Jesus lhes ensinou.

Na figura de Teófilo (amigo de Deus), Lucas projeta todo discípulo que lê sua mensagem. O protagonista da missão é o Espírito Santo, que assiste a Igreja, que guia e inspira cada discípulo. Lucas, depois de uma apresentação inicial, relata a despedida de Jesus depois dos 40 dias em que esteve presente entre os seus. É uma forma de expressar que Jesus cumpre a última promessa aos discípulos, a qual consiste no envio do Paráclito.

As palavras de despedida de Jesus destacam dois aspectos fundamentais: a vinda do Espírito Santo e o testemunho que os discípulos serão chamados a dar até os confins do mundo. O texto apresenta, em poucas palavras, as atividades missionárias das comunidades a quem Lucas se dirige. O Espírito Santo será enviado sobre toda a comunidade. Ele é um dom pessoal e comunitário; irá revestir a comunidade de força e coragem para testemunhar Jesus desde Jerusalém até Roma. Já no primeiro capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas apresenta o desenvolvimento da atividade missionária da Igreja, impulsionada pelo Espírito Santo.

Iniciamos também a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, cujo lema é “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (cf. Jo 15,5-9). Vivemos tempos desafiantes de divisões e polarizações que criam barreiras e divisões entre nós e também com Deus. O texto inspirador desta semana da unidade nos convida a permanecer unidos em Cristo, nossa fonte de amor e comunhão.

2. II leitura (Ef 1,17-23)

A carta pastoral de Paulo aos Efésios provavelmente foi escrita quando o apóstolo se encontrava na prisão. O texto que a liturgia nos propõe está na introdução da carta, na qual Paulo agradece a Deus porque a comunidade de Éfeso acolheu a fé e vive a caridade. Essa comunidade expressa sua solidariedade às outras que se encontram em dificuldades. O texto foi escrito em forma de ação de graças, como fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam a esperança à qual foram chamados.

Essa leitura apresenta dois conceitos muito importantes no ensinamento de Paulo para definir a relação de Cristo com a Igreja: Cristo é a cabeça, a Igreja é o corpo. Dizer que Cristo é a cabeça significa que ele e a comunidade formam uma realidade inseparável; que entre os dois existe uma comunhão de vida e de destino. Significa também que Jesus é o centro à volta do qual o corpo se organiza, se articula, cresce, se orienta e se constrói. Significa ainda que a Igreja, como corpo, está submetida à obediência a Cristo cabeça. A Igreja depende só dele e só a ele deve obediência.

3. Evangelho (Mc 16,15-20)

O relato da Ascensão de Jesus segundo Marcos destaca a missão universal dos discípulos; dotados de particulares poderes carismáticos, eles põem toda sua vida a serviço da missão no mundo. Jesus ressuscitado permanece presente na comunidade cristã e manifesta seu poder salvífico por meio da ação da Igreja. O texto ressalta o papel dos discípulos no mundo, após a partida de Jesus para o encontro definitivo com o Pai. De forma simples, a narrativa se apresenta em três cenas: Jesus ressuscitado define a missão dos discípulos; Jesus parte ao encontro do Pai; os discípulos são enviados ao mundo para realizar a missão que Jesus lhes confiou.

A primeira cena do relato consiste no envio missionário dos Doze, o que indica que foi depois da escolha de Matias. A missão que eles recebem tem caráter universal; são enviados a todo o mundo e não devem se deter em barreiras geográficas, étnicas ou culturais. A proposta de salvação que Jesus fez e que seus discípulos são chamados a testemunhar destina-se a todos os povos. O anúncio do Evangelho é para todos os povos e para todos os tempos. A boa notícia destina-se a transformar todas as realidades que não estão em conformidade com o projeto de Deus.

A presença de salvação de Deus no mundo deve tornar-se realidade por meio da ação da Igreja. Comprometidos com Jesus, os discípulos são enviados a vencer toda forma de injustiça e opressão; serão arautos da paz e do entendimento da mensagem evangélica que anunciam. Muitos sinais acompanharão a missão dos discípulos; sinais de transformação do bem que vence o mal.

A segunda cena, que introduz Jesus na glória do Pai, sentando-se à sua direita, sugere que a missão de Jesus não termina na cruz, mas tem um final glorioso.

A terceira cena descreve a ação missionária dos discípulos, que partem em missão, em obediência ao Senhor ressuscitado. Eles deixam tudo pra trás, de forma mais radical que no primeiro chamado. É a fase da maturidade do discípulo que deixou tudo para seguir a Jesus: vivem no desapego os laços afetivos, não se prendem a um lugar, mas vão para onde a Igreja necessita. A fé no Ressuscitado faz que o discípulo missionário o anuncie com gestos e palavras, a fim de que a mensagem do Evangelho chegue a todos.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Jesus foi ao encontro do Pai depois de doar totalmente a vida a serviço do Reino. Na sua ascensão, a Igreja recebe o mandato de perpetuar no mundo sua missão. Celebrar a Ascensão do Senhor significa, antes de tudo, tomar consciência de que a missão que recebemos em nosso batismo é dar continuidade à obra iniciada por Jesus. Ele deseja continuar sua missão por meio do testemunho de cada batizado. As leituras devem nos questionar se, como batizados, temos consciência de que somos enviados a realizar as mesmas obras que Jesus realizou, cuidar daquelas categorias de pessoas das quais ele cuidou. Trabalhamos para que as forças do mal sejam dissipadas do meio de nós? Temos consciência de que somos enviados como membros de uma comunidade que luta pela vida, pela justiça, pela solidariedade e de que somos chamados a construir laços de fraternidade?

Ser discípulo missionário supõe, em primeiro lugar, aprender os ensinamentos de Jesus com base em suas palavras e gestos, em sua vida oferecida por amor. Somos continuamente desafiados a atualizar sua missão no hoje de nossa sociedade. A cruz das incompreensões também faz parte de nossa vida, como foi para Jesus. Seremos confrontados por valores, ideias e propostas que se opõem aos seus ensinamentos; as adversidades na missão podem nos levar ao desânimo, às desilusões e às frustrações. Por isso precisamos ser alimentados pela sua Palavra, que nos dá a segurança de que ele estará conosco até o fim dos tempos.

Na véspera de sua morte, Jesus orou pela unidade daqueles que o Pai lhe dera: “que todos sejam um… para que o mundo creia”. Unidos a ele, como ramos na videira, partilhamos a mesma seiva que entre nós circula e nos vitaliza.

Cada tradição procura nos levar ao coração de nossa fé: comunhão com Deus, por meio de Cristo, no Espírito. Quanto mais vivermos essa comunhão, mais estaremos conectados a outros cristãos e a toda a humanidade.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: [email protected]