Roteiros homiléticos

Publicado em julho-agosto de 2020 - ano 61 - número 334 - pág.: 58-60

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 16 de agosto

Por Ir. Rita Maria Gomes

MARIA, PRINCIPAL COLABORADORA NO PROJETO DIVINO DE SALVAÇÃO

I. Introdução geral

A solenidade da Assunção de Nossa Senhora quebra a sequência de leituras da liturgia do Tempo Comum, mas não o percurso de celebração do mistério salvífico. Essa solenidade representa uma afirmação de fé alicerçada no mistério pascal: Jesus ressuscita como primícias dos que morreram, como atesta o apóstolo Paulo na segunda leitura. Por isso, o Evangelho e a primeira leitura deste domingo versam sobre o mistério de Jesus Messias. A resposta do salmo aponta para o lugar ocupado por Maria em virtude de sua resposta positiva à missão que lhe fora confiada por Deus, e por isso, com o salmista, cantamos: “À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir” (Sl 44).

II. Comentários dos textos bíblicos

1. Evangelho (Lc 1,39-56)

No trecho do Evangelho desta solenidade, a comunidade celebrante é chamada a acompanhar a visita de Maria a Isabel. O convite, porém, supõe que a acompanhe buscando o olhar e o espírito de Maria, conforme o relato lucano. Logo no início, o evangelista chama a atenção para o local ao qual ela se dirige – “à região montanhosa, a uma cidade da Judeia” (v. 39). A primeira informação aponta para algo importante na teologia bíblica e que, de certo modo, indica o ponto alto do relato: um tipo particular de teofania. A montanha é, tradicionalmente, o lugar de encontro com Deus, o lugar privilegiado para a revelação divina; basta recordar o encontro de Moisés com Deus na montanha do Sinai. Toda essa tradição está subentendida nessa simples informação.

O restante do texto está situado entre uma casa, a de Zacarias, e outra, a de Maria. Ao entrar na casa de Zacarias e cumprimentar sua prima Isabel, a “teofania” se dá. Toda a fala de Isabel é um professar fiel do reconhecimento de João em relação ao seu Senhor. Na narrativa de Lucas, esse é o único momento em que João e Jesus se encontram, ambos nos ventres maternos. A primeira revelação de Jesus, como enviado de Deus, é narrada de modo velado por intermédio das mães. O extraordinário da ação de Deus se dá em duas mulheres aparentemente impossibilitadas de ter filhos: uma virgem e uma anciã, de quem se diz que era estéril.

O terceiro momento do texto é o canto de louvor entoado por Maria em resposta ao louvor que Isabel lhe faz. Maria assume seu lugar de membro fiel de um povo a quem Deus vem, mais uma vez, resgatar e salvar. É na condição de “filha de Sião” que louva a Deus por suas maravilhas e por seu filho, que será o meio de salvação para Israel e para toda a humanidade.

2. I leitura (Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab)

A primeira leitura, tirada do livro do Apocalipse, é bem conhecida por sua aplicação a Maria. A tradição da Igreja só o faz por entender que Maria simboliza a Igreja. Desse modo, todos os textos que dizem respeito à Igreja também podem ser referidos a Maria. A linguagem apocalíptica dá um tom solene e, ao mesmo tempo, dramático. Seu sentido, porém, é bem simples. Os povos antigos, entre os quais Israel, não faziam diferença entre Igreja e Estado. Um rei terreno governava porque Deus assim o dispunha. As guerras eram, em última instância, entre os deuses. Por isso, ao Rei eterno se opunham reis terrenos, que governavam segundo seus próprios interesses e enfrentavam os que lhes eram contrários, ainda que fosse o próprio Deus. A imagem elaborada nesse texto fala sobre esse combate entre Deus e seu projeto e as forças contrárias a ele. Importa, aqui, mirar as figuras que colaboram com Deus: uma mulher e o filho que ela dá à luz. Instintivamente, identificamos Maria com essa mulher e seu filho com Jesus Cristo.

3. II leitura (1Cor 15,20-27a)

A segunda leitura, tirada da primeira carta aos Coríntios, reflete sobre o lugar único de Cristo no projeto divino de salvação. Ela diz qual a função dele: vencer todos os inimigos de Deus e da humanidade. O último inimigo a ser vencido é a morte. Por isso, a reflexão paulina parte da condição de morte que atinge toda a humanidade por causa do primeiro Adão e conclui como a vitória definitiva que vem com o novo Adão, Cristo Jesus. Esse texto paulino só pode ser compreendido à luz de Gn 3.
A morte que atinge a humanidade “por um homem” – leia-se, Adão – não é a morte física que todo ser vivo experimentará mais cedo ou mais tarde, e sim a morte entendida como separação de Deus. Com o pecado, a humanidade foi afastada do convívio harmonioso e paradisíaco com Deus. É essa morte que o novo Adão, Cristo Jesus, vence ao fazer em tudo a vontade divina e ao ressuscitar como primícias. Nele, todo ser humano pode voltar ao convívio íntimo e salvífico com Deus.

III. Pistas para reflexão

As leituras desta solenidade apontam para o papel imprescindível de Jesus na salvação da humanidade e para a colaboração única de Maria. O Evangelho informa que Maria, após aquele encontro especial com Isabel, ficou ainda três meses com sua parente e depois voltou para casa. A vida segue, sua colaboração com o projeto divino de salvação transcorre no velamento. A primeira leitura, com uma linguagem profundamente simbólica, realça os papéis da mulher e do filho, ou seja, de Maria e de Jesus Cristo, no projeto divino de salvação. Com a segunda leitura, podemos compreender a importância da colaboração de Maria no projeto salvífico, pois a morte veio por um homem e era necessário que a vitória sobre ela viesse também por um homem. Em Gl 4,4, Paulo diz que Deus enviou seu Filho “nascido de mulher”, pois, para a salvação da humanidade, a própria humanidade deveria dar sua contribuição. Quando se diz que o Cristo “nasceu de mulher”, afirma-se sua humanidade juntamente com sua divindade e se assegura a salvação de toda a humanidade no humano por excelência, Cristo Jesus.

A Assunção de Maria tem sua base na ressurreição de Jesus, o primogênito entre os mortos. Na celebração dessa solenidade, a Igreja professa a fé na própria ressurreição em Cristo Jesus, visto que Maria é a imagem realizada da Igreja, é sinal de esperança para a Igreja que caminha neste mundo.

Ir. Rita Maria Gomes

é natural do Ceará, onde fez seus estudos de Filosofia no Instituto Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), atual Faculdade Católica de Fortaleza. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde lecionou Sagrada Escritura. Atualmente é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura.