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Publicado em janeiro-fevereiro de 2017

A importância de Paulo para uma pastoral que dialoga

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

O artigo se detém sobre alguns textos dos Atos dos Apóstolos e das Cartas de Paulo, com o objetivo de compreender as atitudes de Paulo com relação “aos de fora”, durante sua atividade de anúncio do Evangelho de Cristo. O Concílio Vaticano II e o Documento de Aparecida recordam o apóstolo Paulo quando tratam do diálogo, da missão e da atividade pastoral da Igreja nos tempos atuais.

 Introdução

Conduzi-vos com sabedoria para com os de fora, aproveitando bem a oportunidade. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um (Cl 4,5-6). Os Atos dos Apóstolos e as epístolas paulinas testemunham que o anúncio do evangelho, desde os seus primórdios, dirigiu-se aos “de fora”. Em período posterior, contudo, a cristandade fechou-se ao diálogo, principalmente quando o racionalismo e o empirismo modernos viram nos postulados da religião uma afronta aos princípios da cientificidade positiva que se impunham naquele momento da história. De fato, a expressão “os de fora”, de Cl 4,5, caracteriza de modo apropriado o mundo moderno, pois este se configurou, principalmente, como secular.

Sentindo-se questionada pelo modernismo, a Igreja voltou-se para as palavras da primeira epístola de Pedro: “Estai sempre preparados para dar resposta ante todo aquele que pedir razão da esperança que há em vós” (3,15). A Igreja compreendeu essas palavras como um indicativo de defender-se daqueles que eram tidos como sendo inimigos da fé. No entanto, não é de apologética que trata esse versículo bíblico. Ao contrário, significa assumir uma postura lúcida de diálogo com o contexto no qual a comunidade cristã está inserida; aliás, foi essa a atitude dos Padres da Igreja no período pós-apostólico. Estes se preocuparam em responder às questões daquela época, confrontando objeções e procurando alternativas no âmbito da linguagem e da experiência vivida por seus contemporâneos, que muitas vezes foram críticos dos enunciados cristãos.

  1. “Deus não discrimina as pessoas” (At 10,34)

Conforme os Atos dos Apóstolos, essas palavras de Pedro na casa do centurião romano Cornélio instauram o primeiro encontro do evangelho com os gentios, ou seja, com as pessoas que não faziam parte dos filhos de Israel.

É bem verdade que, a partir do evento de Pentecostes, a comunidade dos seguidores de Jesus foi movida por um forte impulso missionário, graças ao Espírito Santo. Contudo, não estava suficientemente claro, para a comunidade dos primórdios, que o evangelho deveria ultrapassar as fronteiras do povo de Israel. O trecho de At 10,1-35 nos assegura que Pedro resistiu à evangelização dos gentios por causa de seus preconceitos para com os de fora do judaísmo. Mas, enquanto Pedro ainda hesitava, com receio de desrespeitar os preceitos relativos à pureza expressos na Lei mosaica, o Espírito Santo interveio, ordenando-lhe sair de casa e acompanhar os homens enviados pelo centurião romano (At 10,19-20).

O autor bíblico também atribui ao Espírito Santo o direcionamento dado a Filipe (At 8,29) para anunciar o Cristo ao ministro da rainha da Etiópia, leitor atento das Escrituras e desejoso de entender o livro do profeta Isaías. Também foi o Espírito Santo quem guiou os passos missionários do apóstolo Paulo em direção à Macedônia (At 16,6-10). Isso significa que a abertura da Igreja em relação aos de fora foi decidida e impulsionada por Deus mesmo.

  1. Paulo em Filipos: o desafio de anunciar o evangelho numa grande cidade

O relato dos Atos dos Apóstolos nos informa que, sob a ordem divina para que se dirigisse à Macedônia, o apóstolo Paulo chegou a Filipos, proeminente colônia, porta de entrada para a Europa.

Paulo levou o evangelho aos filipenses, possivelmente durante a segunda viagem missionária (cf. At 15,36 -18,17), por volta do ano 48 d.C. Chegou a Filipos, em companhia de Silas, sem conhecer ninguém na região. Os judeus ali residentes deviam ser poucos, pois a narrativa descreve que se reuniam à margem de um rio ou riacho (cf. At 16,12-13). Ao afirmar que na cidade não havia sinagoga, o texto bíblico refere-se possivelmente à existência de judeus helenistas, que eram diferentes dos que viviam na Terra Santa. Os judeus helenistas tinham por idioma o grego e estavam espalhados nas regiões ao longo do Império Romano. Eles tinham uma mentalidade mais aberta porque estavam constantemente em contato com outras culturas. Mas, mesmo fora da Terra Santa, eles cumpriam as normas fundamentais da fé judaica, apesar de não serem tão estritos, no que se referia aos inúmeros detalhes das prescrições.

Conforme o texto dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Lídia (cf. At 16,14), uma comerciante de púrpura, que era “temente a Deus”. A expressão “temente a Deus” designa uma categoria religiosa bem específica: tratava-se do gentio que simpatizava com a religião judaica, que estava familiarizado com o Antigo Testamento (na versão grega – Septuaginta) e com as práticas do amor ao próximo, da observância do Decálogo (dez mandamentos), da doação de esmolas, da santificação do tempo (fazendo orações em horários definidos) e praticava o monoteísmo ao Deus de Israel. Por causa dessa familiaridade com o universo religioso dos judeus, os tementes a Deus eram conversos em potencial (cf. At 10,2; 13,16; 17,17; 18,7).

Filipos, como toda cidade sob a égide de Roma, desfrutava de relativa diversidade cultural e religiosa, o que se deve ao fato de que numerosas etnias e religiões foram absorvidas durante a expansão do Império Romano. Paulo era permanentemente confrontado com uma realidade complexa, o que naturalmente aumentava o desafio de sua missão evangelizadora. Ao saírem da cidade, Paulo e Silas deixaram uma igreja formada, provavelmente, por judeus helenistas, por “tementes a Deus” e por ex-adoradores de divindades do Império Romano. E, entre as pessoas que colaboraram com os missionários, algumas mulheres são mencionadas. Em Fl 4,2-3, Paulo roga a Evódia e a Síntique que se ponham em harmonia no Senhor. São mulheres evidentemente de destaque na comunidade.

Enfim, apesar da diversidade, todas essas pessoas foram acolhidas dentro da fé cristã; nenhuma delas foi excluída da possibilidade de fazer uma experiência com o Cristo ressuscitado.

  1. O anúncio do evangelho no “vastíssimo areópago da cultura” (DA 491)

Na perícope de At 17,15-34, Lucas narra a chegada de Paulo a Atenas, uma cidade com passado ilustre, por sua história e cultura, centro da vida intelectual grega e símbolo da sabedoria e da religiosidade helenísticas. Era o cenário adequado para um discurso modelo de anúncio do evangelho no ambiente gentílico externo à sinagoga e desconhecedor das Escrituras e tradições judaicas. O discurso de Paulo testemunha o encontro do evangelho com os filósofos epicuristas e estoicos. Ao chegar a Atenas, Paulo se dirige, como de costume, primeiramente à sinagoga, coração do judaísmo na diáspora, e ali debate com judeus helenistas e com gentios tementes a Deus. Depois desse episódio, dirige-se aos atenienses de maneira geral, pois estes gostavam de novidades, eram famosos pela curiosidade, inquiriam a respeito de todo assunto, fosse de natureza pública ou privada (VANHOYE, 1999).

Paulo foi levado para o Areópago, colina situada ao sul da Acrópolis, a qual tinha esse nome por causa do deus Ares. O anúncio do evangelho no Areópago é um verdadeiro paradigma de como a missão deve ser realizada em ambiente secular. Podemos elencar algumas etapas pedagógicas:

  1. Partir da realidade dos ouvintes (At 17,22-23)

A cidade estava cheia de ídolos. Paulo conclui que os atenienses são escrupulosamente religiosos, existe até um altar ao deus desconhecido. Já que adoram a quem não conhecem, Paulo afirma que veio para dar-lhes a conhecer esse Desconhecido. Com isso, capta a benevolência dos ouvintes; contudo, o autor dos Atos dos Apóstolos deixa claro ao leitor que anunciar o evangelho não é proposição de nova teoria filosófica, e sim proclamação da fé.

  1. Valorizar a cultura dos ouvintes (At 17,24-25)

Para anunciar Jesus Cristo entre os filósofos, Paulo cita diversas expressões muito conhecidas por seus ouvintes: Deus “fez o mundo e todas as coisas” (Platão em Timeu, 28); Ele é o “Senhor do céu e da terra” (Cleantes, Hino a Zeus, 5); “não habita em templos feitos por mãos humanas” (Zenão, citado por Clemente de Alexandria, Stromateis, 5.76, 1); “não necessita de coisa alguma” (Filodemos, citado por Eusébio, Praeparatio Evangelica, 13.12, 3).(VANHOYE, 1999).

  1. Em Jesus, Deus se aproximou definitivamente do ser humano (At 17,26-31)

Paulo continua a citar os filósofos e os ouvintes permanecem atentos. O missionário pretende chegar ao objetivo de seu discurso: apresentar Jesus e seu evangelho. “Nele vivemos, nos movemos e somos” (Epimênides de Knosos); “porque também somos de sua raça” (Arato, Phaenomena, 5; Cleantes, Hino a Zeus, 4). Sendo da raça divina, o ser humano é a verdadeira imagem, e não os ídolos fabricados pela arte humana. Portanto, é através do homem Jesus que Deus se aproxima da raça humana.

Jesus é o Homem por excelência, por isso o Criador julgará o ser humano tendo como critério a verdadeira imagem de Deus, o homem ressuscitado dos mortos, Jesus Cristo.

  1. O evangelho avalia as culturas (At 17,32-34)

Paulo não conseguiu muitas conversões com seu anúncio, pois, apesar do esforço de inculturação, poucos aderiram à mensagem cristã. A fé na ressurreição era incompatível com a forma greco-filosófica de pensar a imortalidade da alma. Isso significa que, no encontro entre o evangelho e as culturas, há elementos nucleares da fé cristã dos quais não se pode abdicar. O cristianismo não pode renunciar à fé na ressurreição em nome da inculturação, mesmo que isso leve a um menor número de cristãos no mundo.

Considerações finais

O Espírito Santo, nos dias de hoje, ainda mantém a comunidade eclesial aberta ao dinamismo missionário e ao diálogo com as culturas, com as ciências e com as mais diversificadas expressões de fé. O Vaticano II recorda-nos, a partir das palavras de Paulo aos romanos, que a vocação missionária da Igreja visa ao serviço do evangelho, “a fim de que a oblação dos gentios seja aceita e santificada no Espírito Santo” (Rm 15,16; AG 23). [1] E, passados dois mil anos, ainda é a figura do apóstolo Paulo que nos educa na abordagem com “os de fora”. Prova disso é que a última Assembleia Geral do Episcopado Latino-Americano insiste:

Queremos felicitar e incentivar a tantos discípulos e missionários de Jesus Cristo que, com sua presença ética coerente, continuam semeando os valores evangélicos nos ambientes onde tradicionalmente se faz cultura e nos novos areópagos… Na cultura atual, surgem novos campos missionários e pastorais que se abrem (DA 291 e 293).

O estudo breve que aqui fizemos desses poucos trechos bíblicos nos mostra a que veio o cristianismo: não estamos inseridos no mundo para formar um gueto nem para excluir aqueles que pensam e agem de modo diferente do nosso modo de ser. O diálogo com “os de fora”, o encontro entre o evangelho e as culturas, “nasce do amor apaixonado por Cristo, que acompanha o Povo de Deus na missão de inculturar o evangelho na história, ardente e infatigável em sua caridade samaritana” (DA 491). É na caridade samaritana de Cristo e da comunidade eclesial que nos dirigimos “aos de fora”, não como proselitistas preocupados em aumentar o número de adeptos, mas com a intenção de servi-los, com a mesma atitude do samaritano na estrada de Jerusalém a Jericó (Lc 10,30-35), atendendo à ordem de Jesus que diz: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37).

Bibliografia

BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2016.

CELAM. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe.

4. ed. São Paulo: Paulus: Paulinas; Brasília: CNBB, 2007.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São

Paulo: Paulus, 2014.

FITZMYER, Joseph A.; BROWN, Raymond E.; MURPHY, Roland E. Novo Comentário Bíblico

São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Paulus, 2011.

VANHOYE, Albert. The discourse at the Areopagus and the universality of truth.

L’Osservatore Romano, Cidade do Vaticano, 24 fev 1999.

[1] Decreto Ad Gentes sobre a atividade missionária da Igreja. In: DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO

VATICANO II. São Paulo: Paulus, 2014.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas — teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com