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Publicado em novembro-dezembro de 2015

Convite papal à Vida Consagrada: passar da autorreferencialidade para a “cultura do encontro”

Por Nicolau João Bakker, svd

Há certo desânimo no ar em relação à Vida Consagrada. Se tanto o papa Francisco quanto o prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada insistem em “alegria”, é razoável supor que alguma nuvem de tristeza atingiu os religiosos. A Modernidade olha para a Vida Consagrada de forma bastante cética e desconfiada. Se esta não der testemunho de algo que realmente traz alegria, felicidade e proveito ao ser humano, provavelmente não terá êxito no século XXI.

 Introdução

            Ao entrar, recentemente, numa casa paroquial, surpreendi-me com dois quadros na parede, um do papa Bento XVI e outro do papa Francisco. O papa Bento meio carrancudo, sério, visivelmente contrariado com tanta relativização das verdades eternas, às quais, como professor de teologia, dedicou a sua vida e o seu pontificado. O papa Francisco, ao contrário, muito sorridente, jovial e alegre, encarando tudo de forma mais esperançosa. Dois símbolos de uma Igreja ora mais preocupada com o mal que lhe cerca, ora mais confiante na presença do Espírito que tudo renova.

            O papa Francisco fez do ano de 2015 o “Ano da Vida Consagrada”. Não me surpreende que, em sua Carta apostólica às pessoas consagradas (2014), ele diga esperar que seja sempre verdade o que já afirmou em outra ocasião (a seminaristas e noviças): “Onde há religiosos, há alegria” (2.1). Alegria é também a nota característica de sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium (2013), que se inicia dizendo: “A alegria do evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”. Pelo mesmo motivo, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica dá à sua Carta Circular aos Consagrados e Consagradas (2014) o título de Alegrai-vos. Toda a carta da congregação aprofunda, biblicamente, o convite papal à alegria. Especialmente em Isaías e nos Salmos, a palavra “alegria” evoca a presença de Deus na história de Israel. Da mesma forma, no Novo Testamento, o sentimento de alegria antecede o nascimento do Salvador e acompanha a boa notícia da difusão do Reino. Para Paulo, a alegria é fruto do Espírito (Gl 5,22). Tristeza é só para os que não têm esperança (1Ts 4,13). A alegria é também o dom messiânico por excelência. Como ter tristeza quando estão para se realizar “as núpcias do Cordeiro. Felizes os convidados!” (Ap 19,9)?

            No presente artigo, gostaria de ressaltar a íntima relação entre a espiritualidade da Vida Consagrada e a ação pastoral. É por meio do fortalecimento dessa relação que o papa Francisco quer dar novo rosto à Igreja.

  1. A espiritualidade como berço da pastoral

            A Pastoral, na sua forma mais simples, pode ser definida como “a ação concreta da Igreja”. Por isso, em si mesma, essa ação não é boa nem má, ela simplesmente é o que é. Historicamente, a ação da Igreja passou por fases muito distintas. Na sua feição externa, uma é a Igreja da era patrística, outra, a da cristandade, e mais outra, a da modernidade. Há uma “cosmovisão” de fundo que, com o passar do tempo, faz ver tudo em nova perspectiva, também e especialmente nosso modo de pensar sobre Deus e o Sagrado. Escrevi mais detalhadamente sobre isso em Vida Pastoral, n. 278, 279, 281 (2011) e 282 (2012). O tempo e o lugar dão à Igreja – e à Pastoral – um rosto próprio. Poderíamos dizer também: uma “riqueza” própria. Entendemos isso melhor quando percebemos que o berço da pastoral é a própria espiritualidade.

            Em perspectiva antropológica, podemos dizer: a espiritualidade nasce com o próprio ser humano. O cérebro humano evoluiu lentamente, e as fases de sua evolução ainda podem ser detectadas com facilidade na “fisionomia” cerebral. Tão logo criou consciência de si mesma, a humanidade voltou-se para Deus, ou para o mundo do Sagrado, numa diversidade cultural impressionante. Em sua existência individual e coletiva, em busca de uma vivência, convivência e sobrevivência feliz, o ser humano se percebe radicalmente dependente, insuficiente e falho. Percebe também que pode “superar-se a si mesmo” e encontrar uma felicidade maior por meio de esforços mais intensos e uma inserção social mais colaborativa. As grandes religiões humanitárias – como também as “pequenas” – são as expressões mais evidentes dessa busca humana por uma existência bem-sucedida. Por isso, alguma forma de espiritualidade marca todas as sociedades e todas as pessoas. A longa e riquíssima tradição cristã nos deu a impressão de sermos os únicos e os melhores, mas a moderna “consciência inter-religiosa” nos pede grande cuidado. Temos muito a aprender uns com os outros.

            Vale a pena prestar atenção aqui numa discussão acadêmica atualmente em destaque. Recentemente a imprensa repercutiu em reportagens o trabalho do neurocientista americano Sam Harris, autor do livro A morte da fé (Companhia das Letras, 2009). Ele faz parte do grupo de cientistas do assim chamado “novo ateísmo”. Após ler centenas de livros sobre religião, Harris diz ter chegado à conclusão de que as religiões institucionalizadas, ao invés de estimular a espiritualidade, acabam com ela. Assim como Marx, 150 anos atrás, viu na religião um “ópio”, esses cientistas veem nas religiões uma “ilusão da mente”. Estimam a espiritualidade, mas não a pretensão das Igrejas de monopolizá-la ou mesmo orientá-la. As Instituições Religiosas, para eles, não representam o trigo, mas o próprio joio a ser arrancado. A ciência, de fato, embora ainda de forma rudimentar, descobriu que a “experiência mística” não é privilégio ou exclusividade da Vida Consagrada ou dos mosteiros. Ela é universal e traz uma carga elevada de positividade em termos de compreensão do contexto individual e coletivo – uma mente “iluminada” – e também em termos de disponibilidade para o bem comum. A muito afamada física (quântica) americana Danah Zohar observa que, nos nossos momentos mais ricos em espiritualidade, os neurônios de determinada área do nosso cérebro – o “ponto Deus”, dizem alguns – vibram em total harmonia, em torno de 40 Hz (ciclos por segundo) (cf. Inteligência espiritual, Rio de Janeiro: Viva Livros, 2012). E isso de forma inteiramente independente de qualquer instituição religiosa. Para esses cientistas, basta a força dinamizadora dessa espiritualidade puramente humana para criar uma nova ética e moralidade, o “humanismo secular”.

            Será? Voltarei ao assunto. Por enquanto, basta perceber que a Modernidade olha para a Vida Consagrada de forma bastante cética e desconfiada. Se não der testemunho de algo que realmente traz alegria, felicidade e proveito ao ser humano, ela provavelmente não terá êxito no século XXI. O papa Francisco não é apenas o papa de rosto sorridente, é também um papa de grande inteligência e convicções espirituais profundas. Inicia sua carta dizendo: “Escrevo-vos como sucessor de Pedro…, e escrevo-vos como vosso irmão, consagrado a Deus como vós”. Ele tem plena consciência da íntima relação entre ação pastoral e espiritualidade. A pastoral, em todas as suas ricas e variadas manifestações, ou se alimenta de espiritualidade ou não passa de uma etiqueta mentirosa que nada diz sobre o conteúdo da garrafa. 

  1. Vida Consagrada: convite a algo mais

            O cardeal João Braz de Aviz, atual prefeito da mencionada congregação, observa na sua Carta Circular que não vê a Vida Consagrada como um “modelo de perfeição”, segundo concepções do passado. Todos os cristãos (e cristãs) são chamados à vivência “radical” do evangelho. No entanto, deve existir “algo especial”, na linha do profetismo. Algo que vai além das “argumentações institucionais e justificações pessoais”.[1] Na realidade, não é fácil definir em que consiste exatamente esse “algo mais” da Vida Consagrada. O Decreto Conciliar (Vaticano II) Perfectae Caritatis praticamente se limitou à exigência de “renovação”. O cap. VI da Lumen Gentium, dedicado aos religiosos, vê os conselhos evangélicos como um aprofundamento da consagração batismal, um “sinal” que indica que o povo de Deus não tem na terra a sua cidade permanente (LG 44). O estado religioso torna seus seguidores mais livres das preocupações terrenas e os consagra mais intimamente ao serviço divino.

            É especialmente na Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata (1996) que o algo especial da Vida Consagrada é aprofundado. O sínodo fora convocado exatamente “para aprofundar seu significado e as suas perspectivas em ordem ao novo milênio”. Ela vê a Vida Consagrada como um “dom do Espírito Santo” que vai além da consagração batismal. Os conselhos evangélicos representam um seguimento radical de Jesus Cristo pobre, casto e obediente, “sendo o vínculo sagrado da castidade pelo Reino o primeiro e mais essencial deles” (n. 14 e 32). O documento alerta para um possível equívoco: “O desejo louvável de solidarizar-se com os homens e mulheres do nosso tempo… pode levar a um estilo de vida secularizado, ou a uma promoção de valores humanos em sentido puramente horizontal” (n. 38). Os religiosos, porém, devem ser “peritos em comunhão” e “espiritualidade de comunhão”, sendo que, dessa forma, “a comunhão abre-se para a missão e converte-se ela mesma em missão” (n. 46). “A missão é essencial para cada Instituto, não só nos de Vida Apostólica, mas também nos de Vida Contemplativa” (n. 72). Diz o documento ainda que “a Vida Consagrada não se limitará a ler os sinais dos tempos, mas há de contribuir também para elaborar e atuar novos projetos de evangelização para as situações atuais” (n. 73). E ainda lembra: “O caráter profético da Vida Consagrada foi posto em grande relevo pelos Padres Sinodais” (n. 84).

            Há um dado que, em todos os documentos, sempre volta à tona. Diz Perfectae Caritatis (n. 2e): “As melhores adaptações às necessidades do nosso tempo não surtirão efeito se não forem animadas da renovação espiritual que sempre… deve ter a parte principal”. A Vita Consecrata vê na espiritualidade dos conselhos evangélicos um “significado antropológico profundo” (n. 87). Que nossos irmãos – e irmãs – ateístas nos perdoem, mas não basta um humanismo meramente “secular”. Este, em princípio, é bem-vindo, pois representa o “berço” a partir do qual todo ser humano inicia sua caminhada espiritual nesta terra sempre cheia de ambiguidades e imperfeições. Mas é exatamente sobre essa base que as grandes e pequenas tradições religiosas constroem suas espiritualidades específicas, tendo em vista sua resistência, aprofundamento e dinamização. Seja no budismo, no hinduísmo, no taoísmo ou no cristianismo, encontraremos a presença constante de centros de espiritualidade – mosteiros, ashrams (Índia), guans ou ans (China), Zen-deras (Japão) etc. – nos quais as sociedades encontram sua fonte de inspiração e orientação. Quando esses centros deixam de inspirar a população, porém, quem deve se adaptar e renovar-se em primeiro lugar são os “mosteiros” ou os “religiosos”, e não a população. São os consagrados e as consagradas que devem ser os “sinais” do algo mais. “Sua luz deve brilhar diante dos homens” (Mt 5,16). O Ano da Vida Consagrada é uma oportunidade para ela renovar-se, voltando à fonte da qual surgiu.

  1. Da autorreferencialidade à “cultura do encontro”

            Dizem que há certo desânimo no ar. Se tanto o papa Francisco quanto o prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada insistem em “alegria”, é razoável supor que alguma nuvem de tristeza nos atingiu. Talvez a tristeza que surge quando não há clareza sobre o caminho a seguir, ou então a que se abate sobre nós quando perdemos de 7 a 1 em alguma competição. De fato, há muitos motivos para preocupação, e não somente na Vida Consagrada. A Igreja toda está como que na berlinda. Basta lembrar alguns exemplos. O impressionante avanço do pentecostalismo é um deles. O abandono de um milhão de católicos por ano é mais do que preocupante. Ainda não temos uma estratégia pastoral adequada para “segurar” o nosso rebanho. Existe um sentimento generalizado entre os teólogos e as teólogas de que é preciso mexer na doutrina do ministério ordenado, mas qual o caminho? Predomina a falta de coragem. Um dos problemas de fundo é a falta de sintonia entre a Cúria Romana e o senso comum dos cristãos nas questões de fé, o sensus fidelium dos fiéis declarado “infalível” em LG 12. O papa Francisco encarregou-se de implementar a reforma da Cúria, mas tudo leva a crer que, mais uma vez, nada substancioso irá ocorrer. O Concílio Vaticano II abriu portas e janelas, mas elas foram cuidadosamente fechadas mais uma vez. Temos dificuldade de lidar com o vento impetuoso do Espírito que deu origem à Igreja.

            A Vida Consagrada enfrenta dificuldades parecidas. Foram-se os bons tempos, quando milhares de mosteiros europeus puderam dar sustentação a uma cristandade em geral ávida para acolhê-los. As inúmeras obras de caridade – asilos, escolas, hospitais, orfanatos etc. – que deram visibilidade às novas fraternidades e irmandades religiosas surgidas na Modernidade foram, em geral, assumidas por governos laicos. Como ser “sinal” sem obras? E as numerosas novas congregações missionárias que encontraram espaços de atuação quando se romperam os estreitos limites geográficos do passado? Qual missão resta quando o medo do inferno se desfaz e a teologia do pluralismo religioso ressalta a presença benevolente de Deus em todas as religiões? Isso sem falar da enorme onda de secularização nos países desenvolvidos que pôs fim às vocações. Aliás, uma secularização em fase de mundialização, à medida que o mundo todo se escolarizar e se sujeitar à cultura urbana ocidental. Preocupações não faltam. Há muito mais perguntas do que respostas. É neste clima eclesial um tanto quanto desanimado ou estressado que o papa Francisco foi eleito. Mas o papa não parece estar desanimado ou então percebe o “desânimo pastoral” (EG 82) e está em busca de uma reversão. Sua primeira exortação, Evangelii Gaudium, é um grito forte de alegria e esperança (n. 1 a 13). Quem realmente crê que a Igreja é guiada pelo Espírito só tem motivo para “estremecer de alegria” (Lc 10,21). Nunca cabe “cara de funeral” (EG 10).

            Qual é o ponto central ao qual o atual sucessor de Pedro dedica toda a sua atenção? Para quem analisa com cuidado o que tem escrito e falado nestes primeiros anos de seu pontificado, não pode haver dúvida: a Igreja deve superar a sua autorreferencialidade e, com confiança no Espírito, adotar, decididamente, a “cultura do encontro”. O papa quer uma Igreja decididamente missionária, uma Igreja em atitude de “saída”, isto é, na rua, na sociedade, nas “periferias existenciais” (Carta apostólica, n. 2.4) do povo, em especial do povo pobre. Na exortação EG, ele faz dessa ideia-chave o fio condutor do documento, até certo ponto dando sequência ao Documento de Aparecida, em parte obra de suas mãos. Fazendo suas as palavras de João Paulo II, observa que a atividade missionária ainda hoje representa “o máximo desafio” da Igreja e “a primeira de todas as causas” (Redemptoris Missio, n. 40 e 86). É “o paradigma de toda a obra da Igreja”, complementa (n. 15). Já no primeiro capítulo fala da Igreja em saída (n. 20). A comunidade missionária deve “ir ao encontro, procurar os afastados e… convidar os excluídos” (n. 24). Ela deve constituir-se “em estado permanente de missão” (n. 25; cf. DAp 201). O papa diz “sonhar” com uma Igreja dedicada “mais à evangelização do mundo atual do que à autopreservação”, uma Igreja livre de qualquer “introversão eclesial” (n. 27). “Um coração missionário… nunca se refugia nas próprias seguranças… ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada” (n. 45). “Mas a quem a Igreja deveria privilegiar? Sobretudo aos pobres e aos doentes… àqueles que não têm com que te retribuir” (n. 48; cf. Lc 14,14). Encerra o primeiro capítulo da seguinte forma: “Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus nos repete sem cessar: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’“ (n. 49; cf. Mc 6,37).

            Especialmente no segundo capítulo, o papa pede uma Igreja que – em oposição à “globalização da indiferença” e à “espiritualidade sem Deus” – vá “ao encontro”. São muitas as passagens: n. 54; 63; 70; 74; 78; 87-92. Particularmente os(as) agentes pastorais são convidados(as) a abandonar os “espaços pessoais de autonomia” (n. 78), o “pragmatismo cinzento da vida cotidiana” (n. 83), o “veneno amargo da imanência” (n. 87), como também o “neopelagianismo autorreferencial” (n. 94), o “mundanismo espiritual” e o “funcionalismo empresarial” (n. 95). O papa percebe certa “falta de cuidado pastoral com os mais pobres” e a “inexistência de um acolhimento cordial nas nossas instituições” (n. 70). É preciso redescobrir a “mística” de viver juntos (n. 87), “abraçar o risco do encontro com o rosto do outro” e praticar “a revolução da ternura” (n. 88), longe de qualquer “autocomplacência egocêntrica” (n. 95). “Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais!” (n. 97). 

  1. Vida Consagrada: não deixar morrer a profecia!

            Gostaria de voltar, antes de tudo, à perspectiva antropológica. Ela está recuperando espaço na teologia, mas ainda de forma muito tímida. Se nos limitarmos às grandes tradições religiosas, vejo que todas ressaltam três dimensões fundamentais: 1) vivenciar e testemunhar o que é mais essencial na tradição religiosa; 2) estar a serviço das necessidades religiosas da população; 3) levar a riqueza da tradição religiosa a quem dela sinta falta. Em cada tradição religiosa, as três dimensões estão presentes numa variedade imensa e sempre sujeitas às transformações culturais do tempo. Não é difícil perceber que a primeira dimensão corresponde ao que, no cristianismo, conhecemos como “Vida Contemplativa”, a segunda como “Vida Ministerial” e a terceira como “Vida Religiosa Apostólica ou Missionária”.

                 Não sou especialista na área, mas creio que as três dimensões mencionadas estejam presentes também nas “pequenas” tradições religiosas em qualquer lugar do mundo, hoje e sempre. Por quê? Porque as três são indispensáveis à felicidade humana, tanto a individual quanto a coletiva. Na tradição judaico-cristã (e islâmica), tem-se dado prioridade, por séculos e mais séculos, à doutrina, à “ortodoxia”. Esta nunca foi desligada, porém, do objetivo maior da “vida plena” (Jo 10,10), almejada por Jesus. Hoje, especialmente nas questões de moral e ética, é importante ressaltar que o objetivo maior da vida cristã não é a fidelidade a uma doutrina, mas a fidelidade à felicidade humana. Formulações doutrinárias estão presas às linguagens e compreensões das épocas, a felicidade humana não. Esta tem sua “permanência antropológica”. Ora, cabe à Vida Consagrada – nas suas três dimensões – demonstrar que a completa felicidade humana não se encontra nesta terra. A pregação de santo Agostinho continua válida: somente em Deus o coração humano encontra repouso. Não basta o humanismo secular. Bem que Bento XVI dizia: “O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano” (CV 78).

            Há algo que a nossa pastoral latino-americana costuma esquecer: a lição fundamental da “secularização”. Num país secularizado, especialmente no seu viés ocidental, as vocações à Vida Consagrada quase que desaparecem por completo. O Brasil já deu forte arrancada nesse processo de secularização. No mundo ocidental, hoje fortemente laicizado, em grande medida, apenas os bens materiais são valorizados, disponibilizados e propagados. Neste mundo, os mosteiros dedicados a Mamon, os sacerdotes do Mercado e os missionários da espiritualidade secular estão onipresentes. E quais são os(as) agentes pastorais capacitados(as) para “reverter” a situação? Creio firmemente que não serão os poucos religiosos ou religiosas que “sobram”. Será, em primeiro lugar, a própria “insatisfação antropológica” que possibilitará a reversão. A vida exclusivamente materialista não satisfaz. Ao contrário, apesar de sua atratividade passageira, repugna. Na nossa modernidade avançada, os primeiros sinais da reversão já estão presentes. Hoje, até os ateístas mais militantes já reconhecem que alguma forma de espiritualidade se faz necessária.

            Qual a mensagem do papa Francisco à Vida Consagrada? Na sua Carta apostólica às pessoas consagradas, diz: “Vós não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir!” (introd.; cf. Vita Consecrata, n. 110). E o prefeito atual da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica acrescenta, na Carta Circular: No Ano da Vida Consagrada, são esperadas “ousadas decisões evangélicas” (n. 1). É preciso “sair do ninho” (n. 10) e “perguntar-nos: como está a minha fecundidade espiritual e a minha fecundidade pastoral (n. 12)?” Aí entra o que parece ser uma das ideias-chave do pontificado e da carta do papa Francisco: o que mata a Igreja em geral, e a Vida Consagrada em especial, é a “doença da autorreferencialidade” (n. 2.3). A Igreja não foi feita para si mesma, muito menos a Vida Consagrada, seja qual for a sua dimensão. A luz que deve brilhar diante dos homens não pode ser colocada “debaixo do alqueire” (Mt 5,15). Não adianta “fazer arqueologia”, diz o papa, ou “cultivar inúteis nostalgias” (n. 1.1). É preciso retornar sempre de novo à “centelha inspiradora” dos(as) fundadores(as) (n. 1.1) e, mais ainda, à do próprio Jesus Cristo.

            O papa não se limita a criticar a autorreferencialidade, mas também aprofunda o seu oposto: viver a “mística do encontro” (n. 1.2). “Tal como Jesus… comunicou a sua palavra, curou os doentes, deu o pão para comer, ofereceu a sua própria vida, assim também os fundadores se puseram ao serviço da humanidade, à qual eram enviados pelo Espírito, servindo-a dos mais diversos modos… A inventiva da caridade não conheceu limites” (n. 1.2). Uma Igreja “em saída” exige “viver com paixão (alegria!) o presente”. Há necessidade de “procurar juntos o caminho, o método” (n. 1.2). Para “fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão” (n. 2.3; cf. Novo Millennio Ineunte, n. 43), “os diferentes institutos… devem sair das fronteiras do próprio instituto para elaborar em conjunto, a nível local e global, projetos comuns de formação, de evangelização e de intervenções sociais” (n. 2.3).

            Ocasionalmente parece que o papa Francisco interpreta a opção preferencial pelos pobres numa linha puramente assistencial. Sem dúvida não concebe a Igreja cristã sem “sinais” claros de presença junto àqueles e àquelas que se encontram “à margem”. Não deixa de ver, porém, a limitação inerente a essa opção. O quarto capítulo de Evangelii Gaudium é inteiramente dedicado à questão. Diz o papa com todas as letras:

Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais (n. 202).

E segue: “Qualquer comunidade da Igreja… sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade… facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios” (n. 207).

            Tudo isso é válido para leigos(as), ministros ordenados ou qualquer outro(a) agente pastoral, mas, em especial, para a Vida Consagrada. Lembro, mais uma vez, a posição do prefeito da já citada congregação: o “algo especial” da Vida Consagrada está intimamente ligado à “linha profética”. E o papa diz: “a nota característica da vida consagrada é a profecia”, e “um religioso deve jamais renunciar à profecia” (n. 2.2). Dom Helder Câmara, em suas últimas palavras, confidenciou a um amigo: “Não deixem morrer a profecia”. Parece-me este o grande desafio que o papa apresenta à vida contemplativa, ministerial e apostólica: superar a autorreferencialidade e ir, com alegria e esperança, ao encontro da sociedade, do mundo. Essa pastoral, tão essencial, não é possível sem profunda “espiritualidade samaritana”. Que o Ano da Vida Consagrada nos inspire a beber mais copiosamente dessa fonte da nossa própria tradição religiosa e enriquecer-nos também com outras tradições religiosas para ir, em conjunto e mais decididamente, ao encontro das pessoas deitadas à beira da estrada.

[1] Aprofundo essa espiritualidade em Convergência 468 e 470 (2014).

Nicolau João Bakker, svd

Missionário do Verbo Divino, formado em Filosofia, Teologia e Ciências Sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Foi educador popular no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de S. Paulo (CDHEP/CL), onde coordenou o programa de formação de lideranças comunitárias e o de combate à violência urbana. Lecionou Teologia Pastoral no Itesp (SP). De 2000 a 2008 foi vereador, pelo PT, no município de Holambra (SP). Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita/SP). Atualmente atua na pastoral paroquial em Diadema (SP). Além de cartilhas populares, publicou diversos artigos em Vida Pastoral, REB, Convergência e Grande Sinal. E-mail: nijlbakker@hotmail.com