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Publicado em jeneiro-fevereiro de 2017

Cristianismo e religiões afro-brasileiras: um diálogo de paz e axé

Por Tânia da Silva Mayer

O cristianismo é uma religião originalmente periférica, embora tenha se tornado religião de massas. Sua “genética”, se assim podemos dizer, nos ajudará na tentativa de construir um diálogo de paz e axé com as religiões afro-brasileiras. Este artigo destina-se a apresentar traços dessas “tradições”, para realçar que elas tendem à convivência fraterna e ao respeito mútuo.

 Introdução

O Brasil é um país de raízes plurais. E isso se deve ao processo de colonização pelo qual passamos. Somos a mistura de muitos povos e nossas matrizes são diversas. A procura por um “purismo” brasileiro é bastante inútil. As culturas, as religiões e as instituições influenciam-se mutuamente, e tem sido assim há tempo. A religião, desde muito, está presente na vida dos brasileiros, produzindo o sentido da vida de milhões de pessoas. O cristianismo é a religião majoritária no país, nas vertentes católica e evangélica. Em número menor, mas com bastante expressividade, estão as religiões afro-brasileiras. Elas se definem pela pluralidade e diversidade dos seus ritos e símbolos. Constantemente são alvos de fanáticos que agem com violência.

  1. O cristianismo: um fato de amor e paz

Reportar-nos ao cristianismo é colocar-nos perante um acontecimento fundador de uma experiência que atravessa a história da humanidade. Esse acontecimento-gênese da fé cristã é um evento que ocorre na vida daqueles que são confrontados por ele em suas existências e encontram nele o sentido para a vida. Desse modo, o cristianismo só pode ser compreendido na teia das relações históricas em que o evento-gênese da fé cristã ocorreu, mas não somente.

Precisamente, o acontecimento que gesta a fé cristã é a morte e ressurreição de Jesus. O mundo parou e a terra tremeu (cf. Sl 77/76) pela tragédia ocorrida com o Nazareno, que passou pela vida fazendo o bem e anunciando um tempo novo de paz e amor. A história humana foi “catastrofada” uma vez por todas com o mistério revelado na aurora de uma cruz banhada em sangue inocente. Até o centurião romano não pôde ficar indiferente à morte do Filho de Deus (cf. Mc 15,39).

A cruz de Jesus é o acontecimento histórico-teológico que dá origem à fé de milhões de pessoas em todo o mundo. A morte e ressurreição que ali os olhos crentes vislumbram é a narrativa do amor que é mais forte que a morte (cf. Ct 8,6). Isso só pode ser compreendido porque a cruz é a união da morte com a vida, para que a vida seja plena. E esse fato é possível porque Deus se compadeceu do homem Jesus crucificado e o acolheu, doando-lhe o amor que o libertou do nada que é a morte. É porque Deus amou Jesus, o seu Filho, morto na cruz, que a humanidade foi amada e salva da destruição definitiva e do aniquilamento eterno.

A morte na cruz sofrida por Jesus é o resultado trágico de uma vida dedicada a Deus e às pessoas. É o fim de uma história que não poderia ter terminado assim. As ações e palavras de Jesus anunciaram e inauguraram a boa-nova do Reino de Deus, na medida em que denunciavam um sistema sociopolítico e religioso de exclusão e escravidão de minorias e de pobres. Por isso, a fé cristã que nasce do horror da cruz é calcada na esperança de uma vida íntegra e humanizada, isto é, uma vida plena e abundante.

A violência que o Justo sofreu não apagou a perspectiva do Reino que Jesus inaugurou. E o “olho por olho e dente por dente” da lei do talião foi convertido à lógica do amor narrado na cruz: amai-vos uns aos outros e aos vossos inimigos (cf. Jo 15,12; Mt 5,44). A ética do amor do Pai pelo Filho e, nele, pela humanidade inteira, é o caminho da paz que só a justiça constrói. Desse modo, as cristãs e os cristãos são chamados ao exercício do amor que se desdobra em respeito aos irmãos e irmãs, sejam ou não da comunidade cristã. É esse amor ao outro que permitirá a efervescência de relações fraternas e justas que geram a paz que todos desejam.

O cristianismo é uma das religiões mais perseguidas do mundo. Hoje mesmo temos assistido às perseguições e assassinatos de cristãos, como retaliação por viverem sua fé. No Brasil, essa realidade é diferente. Desde a colonização europeia, nossas terras são predominantemente cristãs e cristãs-católicas. Numa rápida análise dos dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), percebemos que o cristianismo, de vertentes católica e evangélica, é a confissão de fé da maioria dos brasileiros.

Por outro lado, percebemos que alguns setores das Igrejas cristãs têm se fundamentado em suas compreensões cristãs para fomentar um número cada vez maior de seus adeptos em cargos políticos. E não sabemos se aí está se fundamentando um projeto de teocracia extremamente perigoso. De maneira nenhuma o cristianismo brasileiro é uma religião de minorias, como em outros lugares do mundo. Por outro lado, no cenário religioso brasileiro estão as religiões afro-brasileiras, que são minorias religiosas em nosso país. São minorias em ao menos duas vias: a primeira, no sentido numérico; a segunda, no sentido de que suas práticas religiosas são perseguidas, muitas vezes por comunidades cristãs, não tendo seus direitos de culto respeitados e garantidos.

Vejamos alguns elementos dessas religiões que devem ser considerados, a fim de que um diálogo de paz e axé seja construído entre o cristianismo e as religiões afro-brasileiras no cenário contemporâneo.

  1. Religiões afro-brasileiras: um olhar de fora

“Com licença!” é o pedido que fazemos às pessoas de fé das religiões de matrizes africanas no Brasil, para tratar de assuntos que lhes dizem respeito, com os quais guardamos pouca familiaridade. Nosso discurso sobre alguns aspectos das fés professadas por essas religiões é antes uma observação do fenômeno das religiões de raízes africanas, ou das fés de origens africanas, no Brasil.

A atividade teológica, como bem sabemos, é arraigado exercício da fé que procura sua razão. Teólogas e teólogos são crentes empenhados na elaboração de um discurso sobre as realidades nas quais creem. No entanto, o nosso lugar para discursar sobre outras religiões, e neste caso sobre as de matrizes africanas no Brasil, é o do cientista que observa os fenômenos, a fim de obter resultados pretendidos. No entanto, embora apresentemos algumas questões relativas a essas religiões, nosso conhecimento é restrito, porque nos falta a vivência da fé, proporcionada pela participação nos ritos e símbolos dessas religiões.

Para início de conversa, é importantíssimo pontuar que a abordagem “religiões afro-brasileiras” não é precisa semanticamente. Essa imprecisão semântica no termo cunhado decorre do fato de essas religiões gozarem, em sua maioria, de aspectos confessionais diferentes, divergentes, mas também familiares entre si, de modo que é muito difícil estabelecer, por meio de uma única categoria, toda a pluralidade religiosa representada por esses credos. Nesse sentido, devemos compreender que o termo “religiões afro-brasileiras” não diz respeito a um conjunto único de ritos, símbolos, crenças, costumes, doutrinas etc., mas designa o que no Brasil corresponde a 1% (um por cento) da população que se manifesta crente em alguma fé, segundo o Censo de 2010 do IBGE.

As religiões afro-brasileiras sempre estiveram na esteira do submundo religioso brasileiro. O status de religião conferido a esses credos é bastante recente, quando muito essas religiões foram tidas como seitas. Esse fato não é sem razões. As religiões afro-brasileiras, embora não tenham um corpus de fé comum, conservam elementos das religiões dos negros oriundos de vários países da África que, transcorridos os anos do tráfico negreiro da Europa com o Brasil, nos solos das Américas tiveram suas práticas religiosas submetidas à clandestinidade.

Nesse sentido, podemos falar em religiões afro-brasileiras, considerando que as fés dos negros que foram trazidos como escravos para o Brasil aqui se confrontaram com outras crenças, como as dos povos indígenas e a do cristianismo europeu, imposto pelos colonizadores. Desse modo, torna-se inútil procurar nas religiões afro-brasileiras somente os elementos das fés africanas nelas presentes, quando estão presentes; é importante investigar os elementos das religiosidades indígena, cristã, kardecista, entre outras, nas quais as religiões afro-brasileiras beberam, resultando na diversidade das crenças que expressam, já desde os séculos XVIII e XIX.

A investigação dos elementos críveis que compõem as muitas vertentes das religiões afro-brasileiras é tarefa árdua, a ser empreendida por pesquisadores curiosos e disponíveis para mergulhar em águas plurais; e isso já está sendo feito, com chances de que mais pessoas o façam. Nosso trabalho é apresentar alguns traços gerais, presentes nessas religiões, a fim de que preconceitos históricos sejam superados e um diálogo respeitoso seja construído.

Como dissemos, as religiões afro-brasileiras gozam de uma pluralidade que torna bastante difícil expressar a diversidade das crenças, dos ritos e dos símbolos assumidos por elas. No entanto, alguns traços podem ser sublinhados, permitindo-nos estabelecer algumas relações. Em sua maioria, as religiões afro-brasileiras são orais, isto é, todo o conjunto dos ensinamentos da fé são transmitidos através dos mitos e narrativas dos ancestrais a respeito daquilo em que se acredita. Geralmente, a fé é passada dos mais velhos para os mais novos, e não por meio de um corpus teológico ou de livros sagrados, como ocorre no judaísmo, no islamismo, no cristianismo etc. A condição de oralidade dessas religiões é um fator que dificulta uma abordagem teológica sistemática de suas tradições. No entanto, é um traço preponderante em tempos empobrecidos de tradições orais.

As religiões afro-brasileiras são, geralmente, monoteístas. Elas acreditam na existência de um Ser Supremo, criador de todas as coisas. Esse Ser Supremo é Olodumare ou Olorum. É ele o senhor de tudo o que existe e tudo foi feito por sua vontade. Abaixo de Olorum estão os orixás. Essas fés afirmam que os orixás[1] são as forças da natureza, os ministros de Olorum para cumprirem suas ordens e desejo. Precisamente, os orixás guiam os seres humanos, a fim de que eles tenham uma vida plenificada. Essa compreensão está mais próxima de um conjunto de religiões afro-brasileiras de cultos de nação, como é o caso do candomblé e do batuque.

Por outro lado, as religiões afro-brasileiras de umbandas acreditam na existência das entidades e dos exus. Estes são subordinados que cumprem ordens e cuidam de limpar o terreiro[2] após o culto. As entidades correspondem aos ancestrais do povo de santo, de sabedoria distinta que, por meio das incorporações, orienta os filhos de santo sobre como devem proceder na vida. Normalmente, esses ancestrais são um caboclo ou cabocla, um cigano, um preto velho, um boiadeiro, Pombagira etc. Essa crença, como dissemos, está mais presente nas umbandas como a macumba, a umbanda branca (de cunho cristão e espírita), a umbanda esotérica e a quimbanda.

Como podemos ver, há muitas ramificações nas religiões afro-brasileiras, que promovem a existência de inúmeros terreiros e altares, em que brasileiros alimentam sua religiosidade e fé, prestando culto às suas entidades.

Não é possível construir traços totalizantes dessas experiências, uma vez que o seu motor parece ser sempre o da pluralidade e da diversidade. No entanto, é possível traçar pontos comuns entre essas religiões. Quem afirma isso é João Luiz Carneiro (2014, p. 23). Segundo ele, há pontos comuns que relacionam e interligam todas as religiões afro-brasileiras em seus aspectos cultuais. São religiões que pressupõem a iniciação dos que delas participam; são bastante musicais, uma vez que se acredita que a música permite a manifestação das divindades; são cultos em que o transe é elemento constitutivo; são religiões em que o corpo e as expressões corporais são profundamente valorizados.

Embora compreendamos a pluralidade e a diversidade das fés professadas pelas religiões afro-brasileiras, e com isso fique clara a dificuldade para estabelecer uma terminologia única para expressá-las, o fato é que o termo assumido para denominá-las é importante, porque nos permite não somente perceber o vasto universo dessas crenças, como também reconhecer os irmãos e irmãs que delas participam e nelas encontram o sentido para as suas existências. E ao lado da revelação de uma profunda identidade religiosa desses grupos, encontramos as marcas culturais fundacionais deste imenso país chamado Brasil.

  1. Sincretismo: a resistência da fé

Há um consenso de que as religiões afro-brasileiras são, originalmente, sincréticas. Compreensão que não está de todo equivocada. As religiões afro-brasileiras apresentam elementos sincretizados entre si e em relação a outras religiões. No entanto, o sincretismo não é um acontecimento somente nessas religiões. Engana-se quem pensa que as grandes tradições religiosas, orientais e ocidentais, não apresentam elementos sincretizados de outras religiões. O sincretismo é mais comum do que imaginamos, e não é um evento particular das religiões brasileiras.

Subjacente ao tema do sincretismo religioso está posta a questão da “pureza” da religião. Por “pureza” religiosa compreende-se a ausência de relações de influência de determinada religião ou cultura sobre uma religião em questão. A religião “pura” seria aquela que nunca se misturou com quaisquer aspectos de outras religiões e culturas, mantendo-se intocada nas propostas dos fundadores e nas normas e ideias expressas em seus textos sagrados.

Essa ideia de “pureza” não se sustenta diante do fato de que, embora as religiões cultivem aspectos transcendentais, que são do âmbito da fé, aspectos esses que remetem a outros planos e dimensões de existência, elas são enraizadas historicamente, contendo aspectos das culturas em que foram gestadas. Nesse sentido, as concepções culturais dos povos influenciarão os sistemas de crenças das religiões e as suas concepções de transcendente e sagrado, e o contrário também é verdadeiro. As concepções transcendentais influenciarão os sistemas culturais das sociedades.

As religiões estão em constante relação umas com as outras e com as culturas. E é nesse relacionamento que o sincretismo se apresenta como ferramenta bastante acessível. Por sincretismo compreende-se a capacidade de combinar princípios, crenças e outros elementos culturais heterogêneos num único sistema. No sincretismo, os princípios, as crenças ou os elementos culturais sincronizados num único sistema podem ser identificados na relação com o todo, seja o todo das religiões ou das culturas. Nesse sentido, aquilo que foi sincretizado não é amplamente encoberto no interior do sistema que realizou o sincretismo, e, ao contrário do que se pensa, os seus sinais podem ser percebidos e reconhecidos.

O cristianismo é exemplo de religião que passou por muitos sincretismos, desde a sua origem até hoje. Ele irrompe do acontecimento da morte de Jesus e do testemunho de alguns adeptos, no entanto conserva diversos elementos da religião judaica, e não só. O cristianismo também receberá, na sua primavera, influências das culturas e das religiosidades gregas e romanas. A festividade do Natal é, inclusive, elemento sincretizado dos povos pagãos, que cultuavam o deus Sol na época do ano em que os cristãos fixaram a sua festa, já nos primeiros séculos de fé cristã. Os cristãos assimilaram a festa pagã e cultuaram a Cristo, o Sol do Oriente, o Sol da Justiça.

Vertentes neopentecostais do cristianismo, tanto do católico como do evangélico, assumirão alguns aspectos das religiões afro-brasileiras, o que resultará num sincretismo entre o cristianismo e essas religiões. As práticas de transe e a ênfase nas expressões corporais, muito utilizadas nos cultos e orações assumidas por cristãos neopentecostais, são elementos bastante presentes nas religiões afro-brasileiras, No Brasil, muito provavelmente, essa prática entre católicos e evangélicos neopentecostais recebeu influências das religiões afro-brasileiras. E mesmo que se sustente que essas práticas neopentecostais são transmitidas pelos norte-americanos, não devemos desconsiderar que o neopentecostalismo do Norte tenha sincretizado das religiões africanas que lá se estabeleceram nos anos posteriores à escravidão dos negros.

Historicamente, as religiões afro-brasileiras recorreram ao sincretismo com o catolicismo. Conhecemos a história do povo negro que foi trazido para ser escravizado no Brasil e aqui foi obrigado a cumprir as práticas religiosas da fé católica. Esse fato não pode ser ignorado. Muitos negros foram impedidos de praticar suas fés e tiveram de adotar a fé cristã-católica imposta pelos colonizadores, ora sincretizando os santos católicos com as suas divindades, ora os cultuando como possibilidade de uma nova fé. Aqui se abre um novo aporte histórico para o sincretismo no interior das religiões afro-brasileiras: o sincretismo, além de forma criativa para escapar da violência colonizadora, traz em si a capacidade diálogo com outras crenças religiosas e outras concepções culturais.

O teólogo Volney Berkenbrock afirma que o sincretismo das religiões afro-brasileiras deve ser lido como “diálogo intercultural”. Isso significa que o sincretismo é um acontecimento cultural e que todas as religiões são suscetíveis a ele. Nesse sentido, gostaríamos de destacar que o sincretismo tem ocorrido como resistência religiosa para salvaguardar a fé, seja ela qual for. O que está em jogo no sincretismo é a fé, que garimpa espaços para continuar existindo como lugar de sentido para a vida. As consequências para as religiões é outra questão que cada uma buscará resolver no desenrolar do tempo.

  1. Por um diálogo de paz e axé

Axé é uma expressão muito comum nas religiões afro-brasileiras. Ela é muito mais que um cumprimento, é a comunicação de boas energias, de coisas boas aos outros. As religiões afro-brasileiras têm sofrido forte discriminação no Brasil, sendo taxadas de demoníacas, com terreiros e pessoas sofrendo forte retaliação e violência. Na maioria das vezes, isso é provocado pela falta de conhecimento a respeito do culto, dos ritos e dos símbolos dessas religiões, somando-se ao fato de que maioria dos seus adeptos são negros e negras. Com isso, verifica-se que por trás da intolerância religiosa esconde-se um preconceito histórico, arraigado em pessoas de outros credos e religiões.

Entre opositores ferrenhos dessas religiões afro-brasileiras estão católicos e evangélicos neopentecostais. A crença desses segmentos numa plena influência do “demônio” sobre a vida das pessoas faz com que eles interpretem os ritos e símbolos dessas religiões como demoníacos. Uma frente evangélica parece levantar-se cada vez mais para fazer uma pretensa justiça com as próprias mãos, na invasão e destruição de terreiros, o que é profundamente repudiável e lamentável. O fato é que segmentos de cristãos estão travando uma guerra santa contra o povo de santo.

 Conclusão

O cristianismo nasce do evento Cristo, a saber, do acontecimento da morte e ressurreição do homem Jesus de Nazaré. O mistério pascal de Cristo é o evento fundador da fé cristã e fora dele ela não existiria. Nesse sentido, podemos dizer que a fé cristã nasce da cruz, ou melhor, da tragédia da cruz. Nela, Jesus foi crucificado pela intolerância e pelo ódio, que fizeram parecer que a violência e a maldade sobressaíam à paz e ao bem. No entanto, a cruz revelou ao mundo que o amor é o caminho para a vida, precisamente porque o amor é que fecunda a fraternidade e a justiça que promovem a paz.

Por essa razão, todo esforço deve ser empenhado na tentativa de construir no Brasil pontes entre o cristianismo e as religiões afro-brasileiras. Ainda que o caráter plural e oral dessas tradições dificulte a abordagem num nível do diálogo inter-religioso, uma vez que é muito difícil o acesso às “fontes” de suas tradições, visto que elas são amplamente diversas, um diálogo de paz e axé deve ser construído. Esse diálogo é fruto do respeito pela fé do outro, entendida como busca de sentido para a vida. Cristãos e cristãs são convidados a compreender as religiões afro-brasileiras como fonte de sentido para um número expressivo de pessoas. As religiões são chamadas a contribuir com a concórdia entre todos: à paz e ao axé.

Bibliografia

CARNEIRO, João Luiz. As religiões afro-brasileiras: uma construção teológica. Petrópolis: Vozes, 2014.

JÜNGEL, Eberhard. Dios como misterio del mundo. Salamanca: Sigueme, 1984.

[1] Entre os orixás mais conhecidos estão Iemanjá, Xangô, Exu, Iansã, Oxóssi, Oxum, Tempo, Oxalá, entre outros.

[2] O terreiro é o Ilê, onde o povo de santo se reúne para suas práticas rituais.

Tânia da Silva Mayer

Mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE. Graduanda em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. É editora de textos da comissão arquidiocesana de publicações da Arquidiocese de Belo Horizonte. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com