Roteiros homiléticos

11 de junho – Santíssima Trindade

Por Pe. Johan Konings, sj

O Deus de amor

I. Introdução geral

O tempo pascal pôs-nos diante dos olhos a unidade da obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cristo veio cumprir a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que ficássemos nele e mantivéssemos o que ele fundou, renovando-o constantemente, nesse mesmo Espírito. Assim, a festa de hoje vem completar o tempo pascal, como uma espécie de síntese. Síntese não intelectual (isso seria como a história, atribuída a santo Agostinho, da criança que queria colocar o mar num pequeno poço na areia), mas “misterial”, isto é, celebrando a nossa participação na obra das pessoas divinas. Se a oração do dia, hoje, implora pela perseverança na verdadeira fé, não visa à fé meramente dogmática, mas à adesão ao mistério que se apresenta no Pai, no Filho e no Espírito Santo. O cristão se caracteriza por não conhecer outro Deus exceto aquele que é o Pai de Jesus Cristo e doador do Espírito que animou Jesus e os seus, presente e atuante nas três “pessoas” que constituem sua realidade divina, o “acontecer de Deus” em nossa vida, na história e no universo.

Para compreender bem o espírito desta liturgia, convém aproximar a primeira leitura do evangelho, como faremos a seguir.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura: Ex 34,4b-6.8-9

A primeira leitura é uma das páginas mais impressionantes e, literalmente, “reveladoras” da Bíblia. Depois do episódio do bezerro de ouro e da idolatria de Israel, Moisés pediu a Deus que se mostrasse, para que ele, Moisés, pudesse continuar seu caminho contando com sua presença (Gn 33,12-23). Então, ao passar diante de Moisés, Deus revela seu íntimo, apresentando-se como Deus misericordioso e fiel (34,1-7). Deus é compassivo e misericordioso, lento para a cólera, rico em bondade e fidelidade (v. 6). Diante desse Deus, sentimos o peso do pecado, mas também o desejo de ser seus (v. 9). Assim, o “Deus do Antigo Testamento” não é um Deus castigador, como muitas vezes se diz. Sua bondade ultrapassa de longe sua “vingança” (cf. 34,7, infelizmente suprimido no texto litúrgico). O “castigo” de Deus – o próprio mal que se vinga por suas consequências – tem fim, sua misericórdia não. Não há oposição entre o Deus do Antigo Testamento e o do Novo. É verdade que o Antigo Testamento não oferecia uma visão completa sobre Deus; Moisés só pôde ver Deus de costas (Ex 33,23), de modo que João tem razão quando diz que ninguém jamais viu Deus, mas o Filho unigênito o deu a conhecer (Jo 1,18), pois quem vê Jesus, vê Deus mesmo (Jo 14,9). Mas o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo. Deus é um só: o Deus de amor (1Jo 4,8.16). Nós é que temos, às vezes, uma visão muito parcial dele. Em Cristo, ele se deu a conhecer como aquele que ama o mundo até entregar por ele seu próprio Filho (cf. o evangelho).

  1. Evangelho: Jo 3,16-18

O evangelho alude ao sacrifício de Isaac. Abraão estava disposto a sacrificar seu “filho unigênito” – sua única chance de ter um herdeiro. Assim, Deus deu ao mundo seu Filho unigênito. A obra de Cristo é o plano do amor do Pai para com o mundo. Quem o aceita na fé está salvo. O Deus que em Jesus Cristo se manifesta (cf. Jo 1,18) é o Deus da “graça e verdade” (cf. Jo 1,14.16-17), o que se pode traduzir também, conforme a índole da língua hebraica, por “amor e fidelidade”, as qualidades de Deus conforme a primeira leitura. Se na primeira leitura se falou da autorrevelação do Deus misericordioso e fiel diante de Moisés, o evangelho evoca que o amor de Deus se revela no dom de seu Filho único. O amor une Pai e Filho na mesma obra salvadora (Jo 3,16). Jesus conhece o interior de Deus (Jo 3,11) e o mostra (Jo 14,9). Deus se dá ao Filho e, diante disso, o mundo pode encontrar a salvação, a superação de suas contradições e a soltura das cadeias em que se encontra – em última análise, as cadeias do egoísmo. Assim, o ser humano é chamado a aproximar-se da luz, mas há quem se agarre às suas próprias obras, que não aguenta a luz do dia (Jo 3,19-21).

O mistério que nos envolve, hoje, é o da unidade do Pai e do Filho, no seu amor para o mundo (compare Jo 3,16 com 1Jo 3,16). Essa unidade no amor para dentro e para fora, Agostinho a identificou com o Espírito Santo, o Espírito de amor e de unidade que, há oito dias, celebramos em Pentecostes.

  1. II leitura: 2Cor 13,11-13

A segunda leitura concentra a atenção sobre aquilo que a Trindade opera nos fiéis: a graça do Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo – tal como se repete numa das fórmulas de saudação no início da celebração eucarística. O mistério de Cristo na Igreja só se entende considerando a atuação das três pessoas divinas: o amor de Deus, que se manifesta na graça (no dom) de Jesus Cristo e opera na comunhão do Espírito, o qual anima a Igreja desde a ressurreição. O resultado é: alegria. Nesse final da segunda carta aos Coríntios, Paulo condensa toda a sua teologia. O mistério da Santíssima Trindade não está longe. Estamos envolvidos nele.

Daí ser bem adequada a saudação final, pela qual Paulo deseja aos fiéis o Deus da paz e pede que se saúdem com o “beijo santo” (o nosso “abraço da paz”) no nome das três pessoas divinas, caracterizadas por ele como segue: o Filho, graça; o Pai, amor; o Espírito, comunhão.

III. Dicas para reflexão: Amor e fidelidade

Uma pista para a atualização desta mensagem: nosso povo simples é muito comunicativo; partilha a tal ponto seus bens, pensamentos e sentimentos, que, às vezes, não faz diferença falar com fulano ou com sicrano – falando com um, fala-se com o outro. Falar com o filho da casa é a mesma coisa que falar com o pai: duas pessoas distintas, mas a “causa” (“o negócio”) é a mesma. Assim acontece também com as três pessoas divinas; que seja o Pai, o Filho ou o Espírito, a “causa” comum delas é sempre o que elas são, seu próprio ser: amor e fidelidade.

Para muitas pessoas, também as cristãs, a Santíssima Trindade não passa de um problema de matemática: como pode haver três pessoas divinas em um só Deus? Parece que esse mistério nada tem a ver com a vida delas. Se a Trindade fosse um problema matemático, deveríamos procurar uma “solução”. Na realidade, não se trata de uma fórmula matemática, mas de um resumo de duas certezas de nossa fé: 1) Deus é um só; 2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus. Isso nos convida à “contemplação” do mistério de Deus. Pois um mistério não é para o colocarmos dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça (e a pessoa toda) nele…

Moisés (primeira leitura) invoca o nome de Deus: “SENHOR, Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico em amor e fidelidade…”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um Deus que ama. Jesus (evangelho) revela em que consiste a manifestação maior do amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho único, que quis morrer por amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua carta, João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos a vida por ele” (1Jo 4,9).

Assim, tanto no Antigo Testamento como no Novo, Deus é conhecido como “amor e fidelidade”. Essas são as qualidades que se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade” de que fala Jo 1,14). Em Jesus, Deus se manifesta como comunhão de amor: o Pai, Jesus e o Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por nós. Um solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1Jo 4,8), pois ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.

Se Deus é comunidade de amor, também nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho, que deu sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a “imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn 1,26).

O conceito clássico do ser humano é ser individualista. Mas isso não é cristão… Se Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo, não realizamos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos quais o povo se assemelha ao Deus Trindade: bondade, fidelidade, comunicação, espírito comunitário etc.

Como pode haver três pessoas em um só Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo.

Pe. Johan Konings, sj

Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É autor em teologia e mestre em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de
Lovaina. Atualmente é professor de Exegese Bíblica na FAJE, em Belo Horizonte. Dedica-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia – Antigo e Novo Testamento (tradução), evangelhos (especialmente o de João) e hermenêutica bíblica. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje; Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br