Roteiros homiléticos

6º Domingo da Páscoa – 6 de maio

Por Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj*

I. Introdução geral

O povo de Israel tinha consciência de ser povo escolhido por Deus. Mas também foi afirmado várias vezes pelos profetas e pelos salmistas que as nações eram convidadas a entrar na mesma dinâmica de Israel, ou seja, adorar o Deus único, vivo e verdadeiro. Reza o salmista: “Aclamai o Senhor, ó terra inteira, cantai-lhe hinos de louvor”. Sendo assim, qual é a identidade de Israel, já que todos os povos são chamados a se congregar como povo de Deus? Basicamente, a vocação e o papel de Israel em meio às demais nações é ser instrumento de Deus para que todos possam conhecer o Deus da aliança e com ele fazer comunhão. Essa é a mesma vocação da comunidade dos discípulos de Jesus ao longo da história, até que ele volte.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho (Jo 15,9-17): Escolhidos para amar

O evangelho de hoje nos fala sobre a Igreja como lugar da amizade. Jesus nos é apresentado como alguém que confidencia aos seus amigos tudo o que ouviu do Pai (v. 15). Conforme a palavra de Jesus, a Igreja não se fundamenta em relações de poder entre senhor e escravo, nas quais alguns se impõem sobre os outros, no saber e no poder. Jesus superou essa mentalidade do mundo onde uns mandam e outros obedecem; ele convocou uma família, não fundou uma empresa. Somos vocacionados para amar, para viver em comunhão, partilhando uns com os outros aquilo que somos e o que temos.

Jesus confia a nós tudo o que ouviu do Pai, dando-nos o exemplo para que confiemos uns nos outros e sejamos transparentes uns com os outros, a fim de formar verdadeira “comum-unidade”. Se levarmos em conta esse exemplo de Jesus, a Igreja será círculo de fraternidade, local de acolhida do diferente, espaço onde todos se sentirão à vontade para ser o que são, família da qual ninguém será excluído.

Contudo, esse exemplo de Jesus encontra inúmeras resistências em nossa época. Ainda resta um caminho longo e difícil para a inclusão e a aceitação do diferente. Faz-se cada vez mais urgente voltarmos ao evangelho e darmos atenção às palavras de Jesus.

Há grupos dentro da Igreja que querem impor um modo de ser Igreja bem diferente daquele que foi pensado e desejado por Jesus. São grupos autoritários que se definem como únicos conhecedores da essência do cristianismo e defensores da doutrina. No entanto, suas práticas de exclusão se chocam com o agir de Jesus, que se fez amigo de todos, não teve pretensões autoritárias nem tencionou ser o único conhecedor das palavras que ouviu do Pai, pois as partilhou com todos.

E o que Jesus teria ouvido do Pai? Ou melhor, qual seria a vontade do Pai que Jesus cumpriu e nos mandou observar? Na verdade, Jesus a sintetizou em poucas palavras: viver o mandamento que ele deixou, a saber: estar aberto e livre para amar concretamente. Se estivermos dispostos a isso, estaremos em sintonia com ele e, portanto, em sintonia com o Pai.

  1. I leitura (At 10,25-26.34-35.44-48): Deus ama a todos, não faz acepção de pessoas

A primeira leitura traz o relato de um dos aspectos constitutivos da Igreja: a universalidade da mensagem de Jesus. Cornélio nos é apresentado pelo texto dos Atos dos Apóstolos como o primeiro não judeu a ingressar na comunidade dos seguidores de Jesus. Primeiramente, isso significou um despertar para a concepção de que a missão de Israel e a da Igreja jamais seriam excludentes, fato expresso na palavra de Pedro: “Deus não faz acepção de pessoas” (v. 34). A atualidade dessa palavra de Pedro é inquestionável. Que ela possa ressoar nos corações e mentes daqueles que pretendem excluir como impuros os que foram purificados por Deus por meio do mistério pascal de Jesus Cristo.

O gesto realizado por Pedro deve se converter em imagem da Igreja aberta a todas as pessoas, como autêntico testemunho do amor de Deus a todos.

  1. II leitura (1Jo 4,7-10): Deus nos amou primeiro

O fundamento de toda a argumentação desse texto bíblico é a afirmação de Jesus no Evangelho de João: “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que está no seio do Pai, é quem o deu a conhecer” (Jo 1,18). Por isso o Antigo Testamento proíbe fazer imagens de Deus (Dt 5,8; Ex 20,4), porque sua imagem é o homem e a mulher (Gn 1,26-27). O Deus invisível se revela no amor humano. Como, na mentalidade hebraica, a imagem significa a presença e a representatividade, o ser humano, em suas diferenciações de gênero, constitui o lugar da presença de Deus no mundo. A presença divina está onde existe o amor humano. Mais ainda, o ser de Deus é o amor, como origem e sentido de tudo que existe.

Não vemos a Deus, mas escutamos sua palavra e podemos fazer sua vontade. Por isso o texto nos exorta a amar uns aos outros para podermos reconhecer nossa origem, nossa experiência mais original. E como podemos viver esse amor se somos tão frágeis e egoístas? A força que nos liberta do egoísmo não é iniciativa nossa, mas de Deus. Ele nos criou capazes de amar. Não fomos nós que o amamos primeiro, mas foi ele quem nos amou antes de toda a criação e nos convida a entrar nessa sintonia de amor, nessa comunhão, que nos põe em colaboração com ele na sua obra de redenção.

Em que consiste o amor? (v. 10). O amor é a graça que sempre nos precede, que não podemos conquistar nem criar, pois nos é oferecida como dom. Somente quem fez a experiência da prioridade do amor pode falar sobre Deus.

III. Pistas para reflexão

O amor não apenas nos precede, mas nos resgata. O texto de 1Jo 4,10 usa um termo fundamental da tradição sacrifical do Antigo Testamento, “propiciação” (oferenda de expiação, cf. Lv 16) pelos nossos pecados. Já não precisamos sacrificar um animal; o amor do Filho, na gratuidade e entrega de si mesmo, redime-nos do pecado. Isso é o que pode mudar nossa vida, pois do amor surgimos, do amor renascemos, libertando-nos do pecado e da morte.

Algumas pessoas querem substituir os sacrifícios de animais por promessas extravagantes que fazem aos santos. No entanto, o que agrada a Deus é o amor; numa palavra, o amor é o único mandamento que Jesus nos deixou. O amor resume todo o cristianismo, e o amor não exclui ninguém.

Os ritos, os sacramentos, a missa, os sacramentais etc., tudo isso existe para nos conscientizar de que devemos estar dispostos e livres para amar as pessoas em todas as circunstâncias do cotidiano. Vamos à Igreja para sintonizar com o Deus de amor e mais profundamente viver essa sintonia em cada momento da vida.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj*

*Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora
do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com