Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 56 - 59

14 de junho – 11° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

Nós somos o povo e o rebanho do Senhor

I. INTRODUÇÃO GERAL

O domingo sempre será o dia privilegiado do cristão, pois nele celebramos a Páscoa semanal de nosso Senhor. Por isso, é o dia da reunião da comunidade, em torno da Palavra e da Eucaristia, em memória da ressurreição de Cristo. Neste 11º Domingo do Tempo Comum, desejamos, mais uma vez, realizar essa experiência de proximidade e de encontro com Deus.

Nesta liturgia, podemos considerar que o refrão do texto dos Salmos sintetiza todo o mistério celebrativo: “Nós somos o povo e o rebanho do Senhor” (Sl 99). Esse refrão, na verdade, é a tomada de consciência do povo da Escritura – mas também de cada um de nós, no agora de nossa vida – de que fazemos parte do povo de Deus, de que Ele olha por nós e se aproxima, repleto de amor e misericórdia, para nos libertar do pecado e nos salvar do poder da morte.

Na primeira leitura, o povo liberto da escravidão do Egito começa a caminhar no deserto da purificação. Deus continua a guiá-lo e orientá-lo, ressaltando o poder da aliança e da escuta da sua voz. A segunda leitura tem como grande temática a justificação, que é, na verdade, o modo pelo qual Deus nos reconciliou com ele mesmo por meio da ação do Filho, Jesus. Por fim, no Evangelho, Jesus chama o grupo dos doze, constituindo o novo povo de Deus, fundado sob a herança de Israel. Seus discípulos recebem do Mestre autoridade para realizarem, em sua missão, ações parecidas com as do próprio Jesus.

Que, na vivência desta liturgia dominical, possamos fazer esta experiência que nos é proposta: termos a consciência de que somos o povo e o rebanho do Senhor, de que ele nos ama incondicionalmente e está sempre próximo a nós, guiando-nos e protegendo em nossas maiores angústias e necessidades.

II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ex 19,2-6a)

O trecho do livro do Êxodo coloca-nos diante do anúncio da eleição e da aliança de Deus com o povo. Na verdade, Israel já foi libertado das mãos do faraó do Egito. Agora, no deserto, os libertos se aproximam do monte Sinai, lugar em que Deus anuncia a Moisés a eleição do povo e a conclusão da aliança. O texto deste domingo tem a função de ser como que um “prólogo” daquilo que se desenvolverá posteriormente. A ideia que perpassa todo o bloco é que o povo necessita deixar-se purificar e iluminar por Deus. O deserto se caracterizará por ser tempo de libertar a mente e o coração de quaisquer estruturas de escravidão, pecado e morte. Somente um povo liberto poderá habitar, plenamente, na terra de liberdade, terra da promessa divina.

Moisés sobe à montanha para se encontrar com Deus. Chama-nos a atenção que, antes mesmo de transmitir um ensinamento ao grande líder ou ao povo, o Senhor faz memória de quem Ele é e do que já fez em favor de Israel: “Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (v. 4). Deus rememora os grandes feitos do passado, como agiu com mão poderosa em favor da libertação do povo. O Senhor trouxe Israel até os pés da montanha sagrada, o Sinai, para ratificar tanto sua eleição quanto a aliança e renovar a promessa da posse da terra que mana leite e mel.

Consciente disso, o povo continua a ouvir o Senhor. Nos v. 5-6a, Deus apresenta ao povo sua responsabilidade em todo esse processo existencial e espiritual: ouvir sua voz e guardar sua aliança. É preciso, pois, permanecer junto a Deus, pois é ele quem conduz todo o processo libertador/salvador de Israel, que se iniciou lá atrás, no Egito, e desembocará na posse da terra. Escutar a voz do Senhor é sinônimo de fidelidade, consciência e compromisso com ele. Quando o povo se distancia da proposta divina, dá espaço para que o mal, o pecado e a morte participem de sua realidade. Podemos dizer que, nesse trecho, Deus quer despertar todo o Israel para a seguinte conscientização: ele é seu povo e seu rebanho, nação santa e sacerdotal.

2. II leitura (Rm 5,6-11)

A carta de São Paulo aos Romanos é a mais teológica e sistemática entre todos os escritos paulinos. Foi redigida, possivelmente, em Corinto, entre os anos 55 e 60 d.C. Em síntese, objetiva apresentar, de forma clara e distinta, o Evangelho da salvação anunciado por Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, que justifica o ser humano pela fé – e não pela observância da Lei – e o insere numa vida renovada por meio do Espírito Santo. Nessa carta, sobressai o tema da justificação. A justiça de Deus não é punitiva, mas é ação salvadora que faz que o pecador se torne justo. Dessa forma, a justificação é um dom gratuito, imerecido e incondicional; portanto, não é resultado de méritos humanos ou de práticas puramente exteriores.

O último versículo do trecho da segunda leitura proposta para esta liturgia sintetiza, de modo claro, a reflexão do apóstolo: “Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação” (v. 11). Nossa fé está em Deus: por intermédio de Jesus, fomos reconciliados, ou seja, justificados. Antes do tempo da justificação, erámos ainda, segundo o texto, fracos (v. 6a), ímpios (v. 6b), pecadores (v. 8b) e inimigos de Deus (v. 10a). Na plenitude dos tempos, podemos pensar qual a novidade trazida pelo Senhor a nós. Com a morte e ressurreição de Cristo, Deus Pai nos reconciliou com ele: fez-nos justos (v. 7b), salvou-nos (10c), redimiu-nos e reconciliou-nos (v. 11c). Por isso, cumpre nos esforçarmos para viver à altura da dignidade à qual fomos chamados.

3. Evangelho (Mt 9,36-10,8)

O trecho do Evangelho proposto para esta liturgia pode ser dividido ao menos em três partes: a primeira, sobre a compaixão de Jesus e a missão; a segunda, sobre a escolha daqueles que comporão o grupo dos doze; e a terceira, em que o Senhor transmite algumas instruções missionárias àqueles que ele mesmo chamou. Vejamos cada uma dessas partes com mais detalhes.

Na primeira parte do texto, Jesus vê a multidão e move-se de compaixão por ela. O povo estava cansado e abatido, como ovelhas que não têm pastor. Por um lado, o povo parece disperso; por outro, tem vontade de se encontrar verdadeiramente com Deus. O olhar de Jesus para as pessoas sempre será repleto de compassividade, ternura e afeto. Por isso, deseja fazer-lhes algo. Diante das muitas exigências e desafios da missão, Jesus fala da grandeza da messe e da escassez de trabalhadores. É preciso rezar a Deus e pedir-lhe mais pessoas que cooperem na messe. Dessa forma, a missão destas será de reunir o povo de Deus disperso para o Reino dos Céus, que vem ao nosso encontro.

Depois, na segunda parte do trecho evangélico, vemos o chamado dos doze discípulos. Jesus os escolhe e os envia em missão, o que significa a formação, ou melhor, a restauração do povo de Deus, constituído sob a herança das doze tribos de Israel. Segundo o texto, Jesus “deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (Mt 10,1b). A ação dos discípulos se assemelha à ação do próprio Mestre: eles serão sinal da presença de Deus, que restaura e renova tanto Israel (durante a vida de Jesus) quanto todas as nações (após a morte e ressurreição do Senhor). É listado, nessa oportunidade, o nome de todos aqueles que foram escolhidos pelo Senhor.

Por fim, na terceira e última parte do Evangelho, encontramo-nos com o Senhor, que instrui seus discípulos e lhes dá recomendações para a missão. A expressão “não deveis ir aonde moram os pagãos” (v. 5b) significa que, no tempo da vida de Jesus, seus escolhidos direcionarão seus esforços para o povo de Israel: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 6a). A missão atingirá sua universalidade – até os confins da terra – a partir do evento da paixão, morte e ressurreição de Cristo. O conteúdo do anúncio missionário sempre será a proximidade do Reino dos Céus e será testemunhado pelos sinais realizados: a cura dos doentes, a ressurreição dos mortos, a purificação dos estigmatizados como “leprosos” e a expulsão dos demônios (v. 8).

III. Pistas para reflexão

Despertar na comunidade a consciência de que somos o povo e o rebanho do Senhor. Salientar como Deus age em nosso favor, libertando-nos e salvando-nos de realidades físicas e, principalmente, espirituais. Dar centralidade à pessoa de Jesus Cristo, como aquele que nos justifica diante do Pai. Contribuir para que a comunidade sinta e compreenda que o Senhor sempre nos observa com olhar compassivo, terno e misericordioso.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]