Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 38 - 40
6 de setembro – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
A sagrada decisão pela fraternidade
1. INTRODUÇÃO GERAL
O tema da fraternidade, dos vínculos, era muito caro para Jesus. De fato, desde o princípio, Jesus enviou os discípulos “dois a dois” (Mc 6,7-8). Trata-se de iniciar pela convivência, pelo relacionamento, na experiência do amor. O conteúdo, as ideias, a busca pelas razões são consequências de um estilo de vida fraternal. A correção fraterna é um dos caminhos para alcançar a desejada fraternidade. No Evangelho deste domingo, Jesus propõe uma pedagogia da reconciliação que não pode ser deixada de lado diante dos desafios do nosso tempo, a fim de que possamos viver o amor, “cumprimento perfeito da Lei”, conforme ensinou São Paulo à comunidade de Roma.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ez 33,7-9)
O profeta Ezequiel, que fez a experiência do exílio babilônico, apresenta-se com a imagem militar da sentinela: “eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel” (v. 7). De fato, a sentinela era o soldado responsável por cuidar atentamente de um lugar estratégico, identificar perigos e emitir alertas para os outros. Sua missão estava ligada à proteção.
O profeta é alguém chamado por Deus para vigiar seu povo, mas essa vigilância ultrapassa o âmbito militar, porque deve ser capaz de alcançar o horizonte com os desafios do futuro, interpretar os sinais dos tempos e discernir aquilo que não está plenamente manifestado. O profeta deve ser um pedagogo, capaz de advertir, de ajudar a amadurecer e de ser sinal da salvação de Deus para todas as pessoas. Tal vocação exige fidelidade até o fim.
No coração da profecia está a relação com todos os irmãos, aqueles que Deus deseja salvar e que são os destinatários da mensagem profética. O profeta é um construtor de fraternidade e de relacionamentos saudáveis. Por meio de sua pedagogia, daquilo que orienta e adverte, a palavra profética quer sempre construir possibilidades de uma vida integralmente feliz para todas as pessoas.
2. II leitura (Rm 13,8-10)
São Paulo estabelece o amor como o ponto essencial para compreender todo o dinamismo da vida cristã e orientar quem se insere nesse caminho. Toda a Lei, simbolizada pelo Decálogo, traduzida em fórmulas e códigos éticos, encontra a sustentação na decisão de amar, antes e depois de tudo: “o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (v. 10).
Todo o constructo ético da humanidade é fundamental para orientar a vida e a convivência entre as pessoas. No entanto, corre-se o risco de transformar a ética em um manual, sem o sentido daquilo que ela orienta. São Paulo, aos Romanos, aponta o amor como o elã, o cimento que sustenta o edifício ético: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo” (v. 8). Tal exortação ajuda a compreender que, ao assumirmos o amor como uma forma de vida, ele precisa ser parte constitutiva de todas as relações, de uma experiência que exige empenho e esforço contínuo para discernir e amadurecer aquilo que somos, sem esquecer que, por natureza, somos relacionais. “O amor não cansa nem se cansa”, ensinava São João da Cruz.
3. Evangelho (Mt 18,15-20)
Estamos no quarto discurso de Jesus no Evangelho de Mateus, cujo enfoque é mais eclesial. A comunidade dos seguidores de Cristo também é desafiada a superar as divisões e a viver a fraternidade segundo a dinâmica do amor, mas com o auxílio de uma organização que possa favorecer essa experiência. Uma comunidade “desorganizada” tem maior dificuldade de testemunhar o Evangelho e aquela marca identitária pela qual eram reconhecidos os primeiros cristãos: “Vede como eles se amam”.
A pedagogia ensinada por Jesus tinha um ponto de partida: reconhecer no outro um irmão, uma irmã: “Se teu irmão pecar...” (v. 15a). O movimento inaugural do perdão e da reconciliação é a capacidade de enxergar o outro, de ouvi-lo, de acolhê-lo, de ajudá-lo com as conversões que ele precisa fazer. Quando o outro se torna um adversário que deve ser combatido, o Evangelho vai se apagando e dando lugar a impulsos que logo causam arrependimento.
Diante do pecado do irmão, o que fazer? Primeiro, “vai corrigi-lo, mas em particular, a sós” (v. 15b). Não dando certo, efetua-se o segundo passo: “toma contigo mais uma ou duas pessoas” (v. 16). Se nem mesmo assim ele ouvir, vem o terceiro passo: “dize-o à Igreja” (v. 17a). Persistindo o irmão em não ouvir, segue-se o quarto passo: “seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público” (v. 17b).
O passo a passo ensinado por Jesus aos discípulos não é um itinerário para a condenação, mas de amadurecimento do amor; aquele amor que é “o vínculo da perfeição”, conforme ouvimos na segunda leitura. O amor exige aprendizado e discernimento, não é um sentimento solto no meio de outros. A abertura para a reconciliação demonstra a capacidade de amar e um estilo de vida disposto a amar. De fato, as pessoas a quem Jesus dedicou boa parte da sua missão foram os pagãos e os pecadores públicos. Ao afirmar que “seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”, Jesus não está proferindo uma sentença sobre a pessoa que errou, mas está afirmando que, nessa situação, ela precisa ainda mais do amor, do tempo e da qualidade do amor.
O poder dos discípulos de “ligar e desligar” (v. 18) só tem sentido dentro desse estilo de vida de conversão, perdão e reconciliação. Para chegar a essa maturidade, é fundamental compreender bem a importância da boa convivência entre os discípulos de Jesus. Uma pessoa não pode ser reduzida ao seu pecado. Quando somos chamados a intervir para corrigir um erro, não podemos esquecer que quem errou é “o meu irmão”. Todo tipo de humilhação, de deboche, de ironia é negação dessa fraternidade.
O monge italiano Enzo Bianchi ajuda a concluir nossa reflexão:
O que o cristão maduro deve fazer? Admoestar o pecador, certamente, mas com muita caridade. Admoeste-o no momento oportuno, admoeste-o com humildade e clareza, admoeste-o cobrindo a sua vergonha, não a revelando aos outros, portanto, sozinho. Quem faz a correção deve ter o coração de Jesus, que perdoa, não despreza e não se alimenta de preconceitos. Deve fazê-lo com o espírito do bom pastor, que, na parábola contada imediatamente antes por Jesus, vai buscar a ovelha que se perdeu (cf. Mt 18,12-14). Deve fazê-lo não porque a lei foi quebrada, mas porque aquele que pecou fez mal a si mesmo, escolheu o caminho da morte e não o da vida.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Seguir Jesus Cristo é uma questão de vínculos! Não se pode fazer sozinho! Este tempo, marcado pelo individualismo, pelo egoísmo, pelo narcisismo, vai na contramão da proposta de Jesus e entra em choque com o dinamismo comunitário. A comunidade é o lugar dos irmãos que aprendem a conviver e amar, mas também erram, fracassam e precisam ser reintegrados mediante a correção fraterna, que só o verdadeiro amor consegue alcançar. É preciso muita atenção para que a correção não se torne humilhação, julgamento, ironia. O Evangelho é direto e pontual: o outro é o “teu irmão”. Na comunidade cristã, o primado é da fraternidade!
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]

