Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 40-43
13 de setembro – 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
“Respirar” o perdão sem limites!
1. INTRODUÇÃO GERAL
A liturgia da Palavra deste 24º Domingo do Tempo Comum põe no centro o tema do perdão. É a exigência mais alta do discípulo-missionário e também aquela que conforma mais intensamente a pessoa e a comunidade cristã ao mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. O perdão convida ao enfrentamento do rancor, da raiva, do ódio. Exige um estilo de vida fraterno e comunitário. No horizonte, está o convite de Jesus a Pedro e a todos nós para perdoar sempre e assumir verdadeira cultura do perdão.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Eclo 27,33-28,9)
Esse trecho do livro do Eclesiástico, escrito com o estilo de reflexão sapiencial, apresenta as consequências causadas pelo rancor e pela raiva, que fecham as portas do perdão: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?” (v. 3). A forma como nos relacionamos com as pessoas está diretamente ligada à forma como vivemos a intimidade com Deus.
Esse é um discernimento que nos compete sempre alcançar. Se, no último domingo, refletimos sobre o primado da fraternidade, tal experiência nos leva hoje para o perdão, o lugar mais alto do amor. De fato, o amor precisa ser testado pela sua capacidade de perdoar e de vencer a raiva e o rancor: “Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (v. 4).
A leitura vai concluindo com este convite, que nunca deixa de ser o coração das relações novas e saudáveis: “deixa de odiar” (v. 6). A indiferença com as pessoas pode produzir o imaginário de que o outro é um adversário que precisa ser derrubado, um potencial inimigo que deve ser enfrentado. O ódio é consequência quase automática. Nesse mundo dividido, os cristãos devem regressar ao desejo autêntico de conviver em paz, nas diferenças.
2. II leitura (Rm 14,7-9)
A exigência do amor e do perdão, a qual está na base da vida cristã, aparece, na conclusão da carta de São Paulo aos Romanos, como identificação com aquilo de mais importante da nossa fé: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. De fato, nossa missão é uma vida configurada a Jesus: “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos” (v. 8).
Ao escolher viver a fé em Jesus Cristo, o cristão é convidado a mergulhar numa entrega total, num estilo de vida que se torne resposta viva e verdadeira àquele amor que Cristo viveu e pelo qual se entregou na cruz até a morte. Tudo o que fazemos deve se tornar uma resposta amorosa, e não uma obrigação exterior, como se fosse uma prescrição qualquer: “Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto: para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (v. 9). Seguir Jesus Cristo é viver uma pertença total a ele, a qual não é possível sem os irmãos.
3. Evangelho (Mt 18,21-35)
Gostaria de basear o comentário sobre o Evangelho deste domingo em uma reflexão de Daniel, o protagonista de uma série chamada Tudo pede salvação. Trata-se da história desse rapaz, que, certo domingo, acordou em uma clínica psiquiátrica, depois de ter atacado violentamente seu pai. Havia surtado por causa do uso abusivo de drogas e de álcool. Os episódios da série – em número de sete, um para cada dia – acompanham a semana de internação de Daniel. É possível assistir à descoberta da amizade, da convivência, do afeto, do cuidado de si e dos outros, das perdas e das dores, das aventuras, da consciência da condição humana e, principalmente, do significado de salvação. Com outros colegas de quarto, Daniel se abriu a um verdadeiro discernimento, que exige sempre perdoar e perdoar-se!
Em um momento importante da série, Daniel toma a palavra e faz ecoar estas palavras:
Foram irmãos oferecidos pela vida, encontrados no mesmo barco, no meio da mesma tempestade. Entre a loucura e uma outra coisa qualquer que, talvez, um dia, saberei nomear. Cada um no seu canto do quarto, indefesos perante a própria condição, abraçados pela vida, esmagados por um mal, recebido como dádiva... Meus irmãos.
A salvação de Daniel passou pelo perdão. O perdão curou tudo. Como base em uma biografia complexa e improvável, é possível “respirar” o perdão que Jesus convidou Pedro a acolher, diante da sua pergunta: “Quantas vezes devo perdoar?” (v. 21). A resposta de Jesus indica que não é uma questão de número, de quantidade, mas do compromisso com uma cultura de perdão, com um estilo de vida que sabe perdoar sem limites. Aqui está o lugar mais alto do amor. O perdão é o sustento da mensagem de Jesus para a comunidade que estava sendo formada: o ponto de partida, o ponto de chegada e a estrada a ser percorrida! A salvação depende do perdão, e fora do perdão não existe nada.
Para iluminar esse convite, o Evangelho conta uma parábola que está dividida em três cenas: a cena inicial diz respeito a um servo e seu patrão (v. 23-27); a segunda apresenta esse servo com um outro (v. 28-31); a terceira, por fim, traz novamente o patrão e o primeiro servo (v. 32-34), sendo seguida por uma indicação explícita de Jesus (v. 35). A parábola põe em evidência o contraste entre a boa vontade de perdoar e o fechamento ao perdão, avesso a qualquer sinal de paciência. A contradição humana e a grandeza de Deus se manifestam na parábola, que continua convidando cada pessoa a contemplar Jesus como “o rosto da misericórdia do Pai”, nas palavras do papa Francisco.
Ao final da série citada anteriormente, Daniel transformou tudo em poesia:
Do alto, da ponta extrema do universo, passando pelas nossas cabeças e descendo até os calcanhares, na velocidade da luz e além dela, através de cada átomo de matéria: tudo pede salvação! Era a palavra que eu estava procurando: salvação! Para os vivos e para os mortos: salvação! Salvação para o Mario, para o Gianluca, para o Giorgio, para o Alessandro e para a dona Maria. Para os loucos de todos os tempos, engolidos pelos manicômios da história: salvação!
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A abertura ao perdão é sempre um passo adiante em nossa capacidade de conviver com as pessoas e com as diferenças. Nenhum fechamento é saudável. A comunidade cristã, portanto, é lugar privilegiado para, com base na oração comum e no amor compartilhado, alcançar a experiência do perdão. O perdão não é esquecimento, mas um reconhecimento de que o outro também pode errar e seu erro pode ser uma escola de conversão. Perdoar é ajudar a converter, a transformar aquilo que parece estar perdido. Pelo perdão, participamos do mistério maior do amor de Deus pela humanidade, o qual se realizou na cruz salvadora e redentora.
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]

