Roteiros homiléticos

Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 43- 45

20 de setembro – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

Autêntica gratuidade!

1. INTRODUÇÃO GERAL

O testemunho de autenticidade de São Paulo ajuda a compreender que seguir Jesus Cristo não é questão de privilégios e méritos, mas de configuração integral da vida: “o viver é Cristo”. O risco para o qual o profeta Isaías chama a atenção é o de manipular Deus por meio de pensamentos e conceitos que apequenam seu “tamanho”. Como “trabalhadores da última hora”, somos chamados a viver uma vida de fé que se identifica com a gratuidade divina e vence a tentação de querer que Deus realize aquilo que achamos que ele deve realizar.

1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 55,6-9)

Isaías dirige as palavras da primeira leitura deste domingo aos que vivem no exílio da Babilônia. O convite é para fazerem uma mudança de estilo de vida: ao invés de quererem que Deus faça o que eles desejam, o profeta adverte sobre a necessidade de orientar a vida para Deus: “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no perdão” (v. 7).

É tentadora a vontade de “controlar” Deus; no entanto, a profecia ajuda a compreender que ele não é um ídolo. Deus é do tamanho de si próprio, é do tamanho do amor, é do tamanho do perdão e “foge” de qualquer tentativa de aprisionamento ou de manipulação por parte dos nossos pensamentos. Converter-se significa identificar-se, como pessoa, com Deus e com sua grandeza: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor” (v. 8).

O chamado à conversão dos exilados é muito significativo também para nosso tempo. A liturgia da Palavra adverte sobre o risco de uma fé meritocrática, que não deixa espaço à graça, à gratuidade, para permitir que Deus seja ele mesmo com “os pensamentos” que lhe são próprios. Isso significa, ainda, possibilitar que a imagem de Deus que carregamos seja questionada, que o conceito de Deus que aprendemos possa ser amadurecido, a fim de que a fé seja mais autêntica e sintonizada com o Deus revelado pela Sagrada Escritura.

2. II leitura (Fl 1,20c-24.27a)

A carta de São Paulo aos Filipenses vai nos acompanhar nestes próximos domingos. O apóstolo tinha um carinho especial pelas pessoas dessa comunidade, que lhe demonstrou afeto e atenção. Escreveu a carta enquanto estava na prisão, em Éfeso, e recebeu da comunidade de Filipos alimento, roupas e algum dinheiro. Muito agradecido, embora em momento de sofrimento extremo, Paulo testemunhou as dificuldades da sua vida: “Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela minha morte” (v. 20). Ele sente no corpo a fraqueza, a dor, e orienta o sofrimento para a cruz de Cristo.

O testemunho de São Paulo sempre inspira nossa vida cristã: incansável na pregação, nas viagens para comunicar o Evangelho de Jesus Cristo, nas cartas que orientam para viver na prática o seguimento de Jesus e ensinam os fundamentos da fé, na aflição das prisões e das condenações, no discernimento das situações em que não foi compreendido, ele continua tendo a força de anunciar que faz tudo o que faz porque, nas suas palavras, “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (v. 21). Mesmo com todas as adversidades e contradições da vida, “só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo” (v. 27).

3. Evangelho (Mt 20,1-16a)

O Evangelho deste domingo traz a parábola que Jesus contou aos discípulos sobre um patrão que saiu pelas praças para buscar trabalhadores para a vinha. Logo cedo, o patrão encontrou os primeiros e “os contratou por uma moeda de prata” (v. 2). Às 9 da manhã, continuou procurando e contratou outros (v. 3), fazendo o mesmo ao meio-dia, às 3 (v. 5) e às 5 da tarde (v. 6), tendo os últimos trabalhado apenas uma hora.

No final do dia de trabalho, pagou cada um deles conforme tinha acertado: uma moeda de prata. Os últimos receberam antes e, quando chegou a vez dos primeiros, animados, pensavam que ganhariam muito mais, mas também receberam aquilo que fora combinado: uma moeda de prata. Como não paravam de murmurar, um deles recebeu uma advertência séria do patrão: “Estás com inveja, porque estou sendo bom?” (v. 15).

A parábola rompe com a lógica do mérito que está instalada na nossa mente e no nosso coração. O que está em jogo não é a relação econômica de custo versus benefício. A parábola ajuda a compreender e a viver a fé: uns acolheram antes, outros mais tarde, mas para todos a graça, a bênção, o amor do Pai são os mesmos! Somos nós, hoje, os “trabalhadores da última hora”! Isso não significa que quem acreditou primeiro tenha privilégios.

A parábola provoca a trocar a lógica do privilégio pela lógica da gratuidade. A fé é um mistério: uns a receberam e vivem com maturidade, outros a descobriram e vivem com imaturidade, e outros ainda não a vivem e não deixam de ser pessoas boas. Não cabe a ninguém exigir a maior parte e querer apontar a direção em que Deus deve ser bom!

Pior ainda pode ser a tentativa de estabelecer com Deus uma relação mercadológica: “Eu ofereço isso e quero em troca aquilo!” Deus é sempre bom, sempre gratuidade. A fé é um mergulho nesse amor para amadurecer a vida no caminho do bem, superando a lógica dos mais fortes, dos privilegiados, deixando Deus ser Deus, do jeito de Deus!

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A gratuidade é um estilo de vida. Por que fazemos o que fazemos? Aquilo que realizamos na nossa vida é orientado para qual direção? Para o mérito ou para a gratuidade? Para o aplauso ou para a verdade? Crescer na gratuidade é compreender aquilo que Deus espera de nós e conformar nossos pensamentos aos dele. Isso exige um processo de conversão autêntico que todos somos convidados a assumir. É muito importante não esquecer aquilo que também Antoine de Saint-Exupéry ensinou: “O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca”.

Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]