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Publicado em maio-junho de 2015

Cura e libertação: uma abordagem bíblico-teológica

Por Vicente Artuso

No contexto bíblico, ser curado significa o pleno restabelecimento da pessoa, resgate de sua dignidade de ser humano, superação dos males, reintegração na comunidade e no serviço a ela. É algo que transcende a vida presente e a projeta na vida eterna. Inspirados no cuidado de Jesus com os doentes e endemoninhados, os cristãos encontram o sentido profundo para a atenção aos doentes e à superação dos males.

Introdução

Sofrimento, abandono, doença, fome, violência, dependência de drogas, mortes são uma realidade nas notícias diárias. O avanço das ciências da saúde e da medicina, as políticas de prevenção de doenças somadas a projetos com recursos bem aplicados têm melhorado as condições de vida, o que é evidenciado com o aumento da longevidade e diminuição da taxa de mortalidade infantil.[1] Mas o problema do mal – incluindo as doenças e enfermidades – é mais complexo. Sua erradicação não depende somente de planos eficientes mais localizados: o mal em grande parte subsiste num sistema perverso de dominação que mantém os pobres reféns dos ricos e poderosos. É necessário converter também os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse na sociedade de hoje (cf. Paulo VI, exortação Evangelii Nuntiandi, n. 19), para que aconteça uma libertação integral do ser humano. Por causa do mal disseminado em estruturas injustas, muitos inocentes padecem.

As consequências são as variadas formas de sofrimento do povo, que se pergunta: “O que fizemos de errado para merecer isso?” E quando não veem saída, é comum as pessoas assim se expressarem: “Só por Deus mesmo para sair dessa situação”. Na Bíblia, a história do Jó paciente reflete o conformismo nas palavras: “Recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2,10). Jó é figura de tantas vítimas de hoje, que não têm a quem recorrer. Muitos se refugiam na religião, esperando uma cura miraculosa, buscam Jesus milagreiro e exorcista. Outros buscam explicação da origem do mal num princípio negativo, que compete com as forças do bem. Com isso, a responsabilidade do mal é descarregada sobre demônios ou espíritos do mal. O povo sofredor é uma grande parcela da sociedade doente que clama por socorro, saúde, libertação. Cura e libertação são temas correlatos. Vamos refletir com base na história do povo na Bíblia. Será uma abordagem teológica da temática. Na Bíblia, aparece o projeto de Deus no esforço do povo de se organizar e assumir a vida comunitária na prática da justiça e misericórdia em favor do oprimido, do órfão, da viúva, do pobre, privados de condições dignas de vida.

  1. Cura, libertação e salvação

Há uma relação estreita entre cura e libertação, salvação espiritual e saúde física. A salvação do ser humano em corpo e espírito abrange a existência na sua totalidade. O próprio termo latino “salus” significava originalmente saúde e salvação. Cristo é chamado o “Salvador”. E a doutrina da salvação é chamada “soteriologia”. Muito antes de Cristo, o médico Asclépio era chamado de “soter”, salvador (cf. SCHIAVO e DA SILVA, 2000, p. 13-14).

Entendemos que a saúde é bem-estar físico, espiritual e social. Cura não se refere somente a libertação de doenças, mas a promoção da vida, do bem-estar da pessoa, na sua integridade de corpo e espírito. Diante do drama do sofrimento, não basta o conforto espiritual de uma vida futura no céu sem dor. É necessário lutar com os meios disponíveis, para promover a vida. No entanto, a cura é também proporcionar o bem-estar à pessoa mesmo na proximidade da morte. Nesse estado, a pessoa aceita com serenidade os limites da existência, os limites dos recursos da medicina, e sem drama se entrega nas mãos de Deus. Para a pessoa de fé, a experiência do sofrimento a conduz a um nível espiritual de aceitação de que a vida neste mundo é limitada. Como cristão, quem buscou viver na graça de Deus e na comunhão com Cristo também crê que morrer é estar com Cristo e participar da vida plena na ressurreição (cf. 1Ts 4,14; Cl 3,3-4; Fl 1,20-21). Nesse sentido, a cura é uma experiência de bem-estar espiritual diante da morte. Busca-se viver com qualidade de vida e também enfrentar com coragem e serenidade o momento derradeiro como coroamento da vida. Isso é também libertação.

Em relação à libertação, encontram-se na Bíblia principalmente os verbos: livrar, salvar, curar, resgatar, redimir, tirar de… A cura, em geral, é interpretada como ação libertadora de Deus. Ele traz a salvação. O próprio nome “Jesus” no Novo Testamento significa que ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1,21). Tomemos o conceito mais conhecido na teologia, o termo “redenção”. Ele se origina dos verbos hebraicos gahal e padah. O verbo gahal foi traduzido pela Bíblia Grega (Setenta) 90 vezes como “resgatar”, 45 vezes como “pôr em liberdade”, 41 vezes como “libertar” e também “salvar”. O verbo gahal nunca foi traduzido com o sentido de libertar com pagamento de resgate. Deus é o sujeito que resgata e salva gratuitamente. Ele tirou o povo do Egito por sua iniciativa. Deus se apresenta no livro do Êxodo como Senhor e Libertador: “Eu sou o Senhor teu Deus que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). A libertação é parte essencial do projeto de Deus. O povo passou por experiência de escravidão, doença, fome, derrotas. Muitas vezes faltaram com o compromisso assumido de seguir a lei de Deus, não fizeram a sua parte. Mesmo assim, o Senhor estava ao seu lado para exortar à fidelidade. O resultado da cura é o “Schalom”, termo que indica uma situação de paz, integridade, plenitude. No Novo Testamento, Jesus dedicou parte de sua vida ao cuidado da saúde. Seu programa era anunciar a boa notícia aos pobres, dar vista aos cegos, libertar os presos, devolver a audição aos surdos, curar os paralíticos, purificar os leprosos, ressuscitar mortos (cf. Mt 11,5; Lc 4,18-19; 7,21-22). Sua missão incluía também libertar as pessoas do domínio do diabo (cf. At 10,38). Enfim, a missão de Jesus era anunciar o ano da graça do Senhor (cf. Lc 4,18), os tempos sonhados pelo povo com o estabelecimento do reinado de Deus.

  1. Relatos de cura no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, a cura é sempre atribuída à intervenção de Deus, Senhor da vida e da morte. A doença era vista muitas vezes como castigo de Deus pelo pecado. No anúncio da libertação futura, a cura e a saúde seriam restituídas com a eliminação do pecado, causa dos males (cf. Is 33,24; Sl 40,5). No entanto, “a partir do exílio por influência babilônica, toma força a personificação de certos seres inimigos de Deus, e assim se difunde a crença de que anjos maus e demônios também eram causadores da dor, doença e morte” (CHAPA, “Exorcistas”, in AGUIRRE, 2009, p. 121). Na Bíblia, a cura dos males vem de Deus, considerado o médico supremo. Por esse motivo, o recurso aos médicos era visto quase como ofensa a Deus. O rei Asa é admoestado porque “nem mesmo na doença procurou o Senhor, recorrendo só aos médicos” (2Cr 16,12) (cf. VENDRAME, “Curas”, in Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde, 1999, p. 275). Na verdade, havia certos tabus que impediam o avanço da medicina. Por exemplo, a proibição de tocar em cadáveres impedia a autópsia e a descoberta das causas das doenças (Nm 5,2; 6,6; 19,11-16). A aversão pelo sangue derramado (Gn 9,3-4; Lv 19,26) impedia qualquer experimento em matéria de cirurgia. A lei da pureza legal marginalizava os doentes de pele, chamados leprosos (Lv 13-14) (SCHIAVO e DA SILVA, 2000, p. 43). Depois do exílio, abre-se o caminho para a ciência médica e para uma medicina alternativa. Porém não à margem do poder de Deus. O médico deve ser honrado (Eclo 38,1), mas é do Altíssimo que vem a cura: ele deu a ciência aos homens (Eclo 38,2.6), como também ao farmacêutico que prepara as misturas (Eclo 38,7) (VENDRAME, idem, p. 275).

As curas individuais são poucas. As mais famosas são a cura da lepra de Naamã (2Rs 5,1-27), a cura de uma enfermidade mortal de Ezequias (2Rs 20,1-11; Is 38,1-22), a cura de Jeroboão (1Rs 12,26-13,10), de Miriam, irmã de Moisés (Nm 12,11-15), de Nabucodonosor (Dn 4,1-34). Há muitos salmos de súplica por cura de doença (Sl 6; 22; 38; 39; 88; 102; 143), mas também de ação de graças pela cura (Sl 30).

2.1. A cura de Naamã: uma nova vida na fé (2Rs 5,1-27)

Trata-se de um relato de cura da lepra com intervenção do profeta Eliseu. Observemos os efeitos da cura: além da restituição da saúde física, houve uma transformação na vida daquele homem, comenta Olivier Artus (Curar e salvar no Antigo Testamento, in MICHEL e PIERRE, 2007, p. 46). Por duas vezes o relato utiliza o substantivo “servo” para expressar essa mudança. De um lado, percebe-se a arrogância de Naamã, que se admirava do fato de Eliseu não vir a seu encontro e enviar um mensageiro (2Rs 5,11). Após a cura, a arrogância dá lugar à reverência para com o profeta, e Naamã fala como “servo” do profeta: “Por favor, aceita este presente do teu servo” (2Rs 5,15). Naamã, no início do relato, é apresentado pelo rei de Aram (Síria) como “seu servo”, depois Naamã designa-se a si mesmo como servo de Eliseu, em 2Rs 5,15.18. Definido em 2Rs 5,1 como chefe do exército do rei de Aram, a partir de 2Rs 5,15 Naamã encontra nova identidade fundada na fé no Deus de Israel: “Agora sei que não há Deus em toda a terra a não ser em Israel”. As observações acerca do personagem Naamã mostram que a cura não constitui o núcleo da transformação: ela se torna possível por sua conversão, que o faz adotar uma atitude de servo com relação a Eliseu, homem de Deus. A cura é sinal de uma transformação interna.

2.2. A cura de Ezequias: Deus escutou sua oração (2Rs 20,1-11)

Ezequias, rei de Judá, é atingido por uma doença mortal. O profeta Isaías lhe anuncia que morrerá em breve. Ezequias cai em prantos e, em sua oração, expressa que sempre foi fiel e praticou o que era agradável aos olhos de Deus. Logo em seguida Isaías é enviado a transmitir a boa-nova ao rei: “O Senhor escutou a prece e viu suas lágrimas!” Com uma aplicação de espécie de pasta de figos sobre a úlcera, Ezequias é curado e vive mais 17 anos. Temos a súplica em prantos que é ouvida por Deus. Vemos nas palavras de Ezequias que ele foi fiel e fez o que era agradável a Deus (cf. 2Rs 20,3). Pela concepção da teologia da retribuição, Deus recompensa os bons e castiga os malvados. Ezequias é curado, pois reivindicou os seus méritos na oração. Como não havia explicação para a causa da doença, o mal era atribuído a um possível castigo de Deus. E a cura só poderia vir de Deus. Ele fere e cura a ferida (cf. Dt 32,39)! Porém essa cura acontece com intervenção humana, mediante a aplicação de uma pasta de figos. Uma teologia mais desenvolvida da cura e libertação na Bíblia valoriza a intervenção humana e os remédios para a cura, no caso as plantas úteis como alimento e remédio (cf. Gn 1,30; Ez 47,12).

2.3. Salmo de ação de graças de um doente curado (Sl 30)

O salmista exalta o Senhor porque o tirou do scheol (30,2). “Eu te exalto, Senhor, porque me livraste”. O verbo hebraico dalah (30,2), que significa tirar para fora, é usado quando se fala de tirar água do fundo do poço com um balde. É traduzido também como “livrar”. A imagem é forte, pois o salmista reconhece que o Senhor o tirou fora da situação de crise, de morte iminente de quem estava descendo ao fundo do poço. Sua vida estava em fase terminal, descendo à região dos mortos. Ele gritou e o Senhor o curou (30,3). A invocação de cura de doença indica que ele está consciente de que sua doença não é apenas arbítrio de Deus, mas também pode ser resposta a sua atitude de presunção (30,7). Nesse sentido, a cura inclui também o perdão dos pecados e a reintegração na comunidade dos justos. A seguir, o salmista conta o passado antes da doença, lembrando sua segurança e prosperidade: “Eu dizia na minha prosperidade, jamais serei abalado” (30,7). Quando tudo vai bem, facilmente as pessoas se esquecem de Deus, mas quando vêm crise e ameaça, a reação é imediata: “A ti, Senhor, clamo, imploro graça, ó Deus, meu salvador” (30,9). “Escuta, Senhor, tem piedade de mim, ajuda-me” (30,11). A cura aconteceu no aspecto físico. O Senhor impede a morte, a descida ao scheol. Porém acontece também a cura em âmbito espiritual. O salmista é curado de sua presunção e falsa segurança. Torna-se humilde e agradecido. Reconhece que o Senhor restitui a vida. A doença foi interpretada como uma advertência no momento da ira divina para corrigir. A cura espiritual aparece na capacidade de transformar os conflitos da vida em fonte de espiritualidade, dando novo significado à existência.

  1. Cura e libertação na prática de Jesus

Se a medicina moderna, com todos os recursos, não consegue a cura de tantas doenças, podemos imaginar como era 2 mil anos atrás. Grande parte da população era doente e o índice de mortalidade era alto. Isso explica por que grande parte do evangelho relata o ministério de Jesus curando doentes de toda espécie. Os gestos milagrosos de Jesus são conhecidos como “gestos poderosos”, “sinais” ou “obras” de Deus. São sinais de que o Reino de Deus chegou na prática libertadora de Jesus (Mt 12,28; Lc 11,20). Jesus curou quatro cegos, quatro paralíticos, um leproso, outros dez leprosos de uma vez, exorcizou cinco endemoninhados, curou a distância a filha da cananeia e o empregado do oficial romano, devolveu a fala a um surdo-mudo, baixou a febre da sogra de Pedro, curou uma mulher com hemorragia, colocou a orelha de um soldado, além de realizar diversas curas em massa (SCHIAVO e DA SILVA, 2000, p. 17). Quanto aos tipos de milagres, os evangelhos falam de curas e de libertações de possessões do demônio ou exorcismos. Nem sempre é clara a distinção entre as duas formas de intervenção curativa de Jesus. Isso porque algumas doenças físicas ou psicofísicas – surdez, mutismo, epilepsia – eram atribuídas à presença e ação dos espíritos maus (Mt 12,22; Lc 11,14). Analisemos alguns relatos para mostrar a dimensão da cura e seu significado na prática de Jesus.

3.1. A sogra de Pedro pôs-se a servi-los (Mc 1,29-31)

É o relato de cura mais breve. Jesus vai ao encontro dos doentes, junto com seus discípulos. Ele é o terapeuta da família, pois visita as casas do povo. Não se sabe a causa da doença da sogra de Pedro. Jesus, sem dizer uma palavra, apenas “tomou-a pela mão e a fez levantar-se” (Mc 1,31), e a febre a deixou. O resultado da cura: a sogra de Pedro voltou a fazer o que sempre fazia, “pôs-se a servi-los”. Mais uma vez aparece a humanidade de Jesus. A cura vai acontecer na solidariedade e compaixão com os doentes. No relato paralelo de Lc 4,38-39, Jesus cura fazendo uma espécie de exorcismo: “esconjurou a febre”. Muitos acreditavam que a febre vinha dos espíritos do mal. O importante foi o resultado da visita de Jesus em vista da cura.

3.2. O leproso tocado por Jesus e integrado na sociedade (Mc 1,40-45)

O relato apresenta o leproso que foi até Jesus e implorou-lhe a cura, pondo-se de joelhos (cf. Mc 1,40). Marcos relata que Jesus foi movido por compaixão (cf. Mc 1,41). Jesus foi tocado pela situação dramática daquele homem e se compadeceu,
“tocou-o” e o curou. Jesus rompe o preconceito segundo o qual tocar uma pessoa com aquela enfermidade fazia impuro quem a tocasse. Ele é movido de compaixão, aproxima-se e assim revela a face de Deus compadecido pelos doentes. Jesus vai na contramão dos costumes da época e resgata a dignidade da pessoa. Ele acolhe, ouve a súplica e toca. Aconteceu uma cura e libertação da pessoa doente, sua dignidade foi resgatada. Como reação, aquele que antes era leproso e vivia excluído, longe da comunidade, não pode guardar silêncio. Ele sai e proclama a boa notícia por toda parte. Fica clara a inclusão do curado na comunidade, mediante a prática de Jesus em favor dos excluídos. Fica claro também que a fé do doente coopera no processo da cura com o toque e as palavras de Jesus “quero, fica purificado”.

3.3. O que era paralítico saiu carregando o leito (Mc 2,1-12)                   

Como na narrativa da cura do leproso que veio até Jesus (cf. Mc 1,40), aqui muitos vão até Jesus “em casa”. Ocasião em que trazem um paralítico no leito (cf. Mc 2,3). O cenário é a casa apinhada de pessoas, de sorte que ninguém podia entrar. O relato é dramático pelo fato de descobrirem o telhado para introduzir o paralítico com seu leito! O doente nada diz, mas Jesus, vendo a fé daqueles que carregavam o doente, fala: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 12,5). Há uma introdução do tema do perdão dos pecados associado à cura (cf. Mc 2,5b-10a). Jesus ordena: “Para que saibais que o Filho do homem tem o poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno, levanta-te” (Mc 2,10b-11). O resultado é imediato: o paralítico se levantou e saiu diante de todos carregando seu leito (Mc 2,12). O mesmo que entrou com dificuldade, sendo carregado, agora sai carregando a própria cama. A libertação é integral com o perdão dos pecados e a recuperação do enfermo. O pecado, segundo a concepção judaica da época, estava ligado à enfermidade (GNILKA, 1986, p. 116). Realmente o mal, os pecados bloqueiam as pessoas, paralisam. O perdão solta os laços, as cadeias, liberta a pessoa para caminhar com as próprias pernas. A prática de Jesus ligada à sua grande compaixão revela a nova face de Deus, humana, como um Pai. Ele chama o paralítico de “filho”. A cura conta com a fé e a solidariedade da comunidade, representada naqueles que carregavam o paralítico.

3.4. O que era endemoninhado se tornou missionário (Mc 5,1-20)

Trata-se do caso do endemoninhado de Gerasa. Do extremo da situação de exclusão, sofrimento e violência, o homem é curado e aparece “vestido, sentado e de são juízo”. Depois, é enviado a anunciar o que Jesus fez por ele. O narrador descreve o fato num contexto de viagem. As indicações de desembarque em Gerasa (cf. Mc 5,1) e subida no barco (cf. Mc 5,18) mostram a preocupação de situar o relato no contexto de missão. No final do milagre, Jesus parte de volta (cf. Mc 5,18) e também o curado parte em missão por ordem de Jesus. A ordem de marchar ou de ir para casa é típica da conclusão de relatos de milagres (Mc 1,44; 2,11; 5,34; 8,29; 10,52). A preocupação de ir aos outros lugares deriva do interesse do evangelista de destacar a urgência da missão. Certas repetições parecem acentuar também a necessidade de testemunhar o fato: por duas vezes, o endemoninhado vai a Jesus (cf. Mc 5,2 e 5,6). Duas vezes é contado o que aconteceu ao endemoninhado e aos porcos por meio dos pastores (cf. Mc 5,14) e daqueles que viram (cf. Mc 5,16). O fato será testemunhado também pelo próprio curado, que anunciará aos seus o milagre. O afogamento no mar dos porcos, associados à legião, indica a derrota definitiva do poder do mal. (Porcos: sistema judaico da lei do puro e impuro que excluía; legião: força organizada de destruição comandada pelo poder romano na região da Decápole.)

O milagre mostra a rejeição da dominação política. A simbologia das correntes, grilhões, algemas sugere o contexto de escravidão. A narração indica a luta de Jesus, “o mais forte para amarrar o homem forte” (Mc 3,27). Gerd Theissen tem também essa posição: “a opressão por um povo dirigente estrangeiro às vezes aparece em código, como possessão por um espírito estrangeiro”. No texto de Marcos, a menção dos 2 mil porcos que despencaram mar adentro simboliza a libertação do povo da dominação das legiões romanas no território da Decápole. A possessão dos demônios em sociedades tradicionais muitas vezes também é reflexo de antagonismos de classe enraizados na exploração econômica. A possessão pode ser ainda uma forma socialmente aceitável de protesto indireto contra a opressão, ou mesmo fuga desta. A tensão entre seu ódio aos opressores e a necessidade de reprimir esse ódio a fim de evitar recriminações dos opressores leva o indivíduo a ficar louco… Ele se retirava a um mundo interior onde pudesse resistir à dominação. Nesse sentido, o endemoninhado representa a ansiedade coletiva diante do imperialismo. Trata-se, segundo Franz Fanon, de colonização da mente, em que a angústia da comunidade diante de sua subjugação é reprimida e, depois, se volta contra si mesma. Isso parece ser suposto no relato de Marcos, quando diz que o homem emprega violência contra si mesmo (cf. Mc 5,5). Segundo Carmen Bernabé Ubieta, “as doenças de possessão são reflexo corporal de um conflito interno produzido em grande medida pela defasagem entre os desejos e sentimentos internos e o que as normas sociais impõem e permitem à pessoa. Nesse caso, por meio dos demônios que gritam, a pessoa expressa indiretamente as queixas que tem contra o seu ambiente (“A cura do endemoninhado de Gerasa”, in AGUIRRE, 2005, p. 113).

3.5. O cego Bartimeu tornado discípulo (Mc 10,46-52)

O relato situa-se no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém, em que ele instrui os discípulos sobre a natureza da sua missão messiânica, revela quem ele é e apresenta as exigências do seguimento. Aos poucos, os discípulos vão compreender o que é ser discípulo, sua mente e seus olhos vão se abrir. A intervenção de Jesus curando cegos antes de iniciar a caminhada (cf. Mc 8,22-26) – e, no final da caminhada, já próximos a Jerusalém (cf. Mc 10,52-56) – tem a ver com a cura da cegueira dos discípulos. A cura significa a aquisição de nova visão, a mudança de paradigmas para entender o projeto de Jesus. Certas particularidades do relato parecem querer apresentar o modelo do discípulo. Vejamos.

É o único milagre no qual nos é dado o nome da pessoa curada e também o único caso em que o curado segue Jesus. Ao seguir Jesus, ele joga o manto e vai atrás. É instrutiva a comparação com a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26) e também a cura do surdo-mudo situado na Decápole (Mc 7,31-37). No primeiro relato, Jesus é o protagonista de toda a ação, conduz o cego pela mão para fora, faz barro com saliva, aplica no olho. No segundo relato, na cura do cego Bartimeu, os dados se invertem. O doente é o sujeito da maior parte das ações. É ele quem grita e pede: “Filho de Davi, Jesus, tem compaixão de mim” (Mc 10,47). Ele deixa a capa, levanta-se, vai até Jesus (cf. Mc 10,50). Há um diálogo e Jesus lhe pergunta: “Que queres que eu te faça?” O cego responde: “Que eu possa ver novamente” (Mc 10,51). E o relato termina com as palavras de Jesus: “Vai, a tua fé te salvou”. Porque foi salvo da cegueira, ele seguia Jesus pelo caminho (Mc 10,52).

  1. Modelos explicativos e estratégias de cura

Como falar de cura e libertação à luz dos relatos de cura dos evangelhos, diante do modelo biomédico, empírico, da medicina ocidental? É importante clarear os modelos explicativos da doença no primeiro século e o modelo atual, científico. Segundo qual perspectiva o modelo cultural com uma hermenêutica teológica, em nossos dias, pode iluminar a prática da cura e dar-lhe sentido? Para esta reflexão, sigo o estudo de Santiago Guijarro Oporto (“Relatos de cura e antropologia”, in AGUIRRE, 2009, p. 249-270), que apresenta uma chave interpretativa dos relatos de cura à luz da antropologia médica.

Por trás das diversas formas de entender a doença e de reagir diante dela, há um modelo explicativo. Sua função é oferecer uma explicação da doença, servir de guia na hora de escolher as diferentes terapias disponíveis e dar sentido à doença do ponto de vista pessoal e social. O modelo explicativo é o que determina quais sintomas são importantes e quais não são, e como devem ser interpretados e tratados (cf. AGUIRRE, 2009, p. 256). O entendimento da patologia como doença é, portanto, um processo cultural. Todas as culturas possuem moldes para perceber, entender, explicar e tratar os sintomas (idem, p. 257).

A estratégia terapêutica é o procedimento seguido para tratar uma doença e obter a cura. Tal entendimento da doença depende do modelo explicativo popular da medicina do século I no Mediterrâneo, enquanto nosso entendimento depende do modelo em que se sustenta o setor profissional da medicina ocidental. Daí a importância de relacionar o processo de cura no tempo de Jesus com o processo de cura como é explicado pela medicina ocidental (idem, p. 259).

O quadro a seguir resume as principais caraterísticas de ambos os modelos (idem, p. 260):

Modelo biomédico (empírico)

Entidades patológicas: lesão ou disfunção somática ou psicofisiológica (a disfunção é entendida como patologia).

Estrutura de relevância: são relevantes os dados que apresentam uma desordem somática.

Procedimentos de identificação: revisão dos sistemas; testes de laboratório.

Meta da interpretação: diagnóstico e explicação.

Estratégia interpretativa: examinar dialeticamente a relação entre os sintomas e as desordens somáticas.

Objetivo terapêutico: intervir no processo da doença somática.

Modelo cultural (hermenêutico)

Entidade patológica: universo de sentido, a doença percebida pelo paciente (a disfunção é entendida como doença).

Estrutura de relevância: são relevantes os dados que revelam os significados da doença.

Procedimentos de identificação: avaliar os modelos explicativos; decifrar o campo semântico.

Meta da interpretação: compreensão.

Estratégia interpretativa: examinar dialeticamente a relação entre os sintomas (texto) e o campo semântico (contexto).

Objetivo terapêutico: tratar a experiência do paciente: fazer entender os aspectos ocultos da realidade da doença e transformá-la.

O modelo biomédico é apto para entender a doença e a cura no setor profissional da medicina ocidental, mas é pouco relevante quando aplicado aos casos em que a doença é entendida e vivida segundo certos padrões culturais diferentes, como acontece nos relatos de cura e libertação nos evangelhos. Para os evangelhos, é mais útil o modelo cultural (p. 260). Naquela cultura, Jesus e os primeiros cristãos pensavam que a origem da doença e da saúde estava em Deus (cf. Ex 15,26). Embora no relato da cegueira, por exemplo, não se mencionem as causas, podemos supor que eles a atribuíssem à ação de um demônio (cf. Mt 12,22) ou talvez a um pecado pessoal herdado (cf. Jo 9,2). Esse era o pano de fundo comum na cultura e religião da época (p. 263). Portanto, no caso da cura do cego de Jericó, são mais significativos os dados que revelam o significado da doença que a cegueira em si mesma. O relato é um exemplo didático com o objetivo de instruir os discípulos de que a cura da cegueira significa (no contexto da seção de instrução dos discípulos: Mc 8,3-10,52) a cura dos próprios discípulos. O texto tem em vista apresentar o modelo do verdadeiro seguidor de Jesus, que compreende as exigências do seguimento e assume suas consequências. No caso, o que era cego, curado pela fé, é capaz de jogar o manto e ir atrás de Jesus. Na verdade, a cura aconteceu no âmbito da compreensão dos discípulos do que seja o seguimento; o médico Jesus atuou junto com o paciente. A cura veio da fé daquele que era cego, resultando em uma transformação na sua vida. Desse momento em diante, com a nova visão, mendicância, exclusão e desprezo ficam para trás. Ele é discípulo integrado na vida do povo, ciente do caminho que deve tomar.

Em alguns dos relatos que analisamos, o aspecto da fé das pessoas curadas pode parecer, segundo a visão da medicina científica atual, apenas uma forma de explicar a cura, um dado cultural da época. Porém a fé é existencial. O ser humano é essencialmente religioso e, em todos os tempos e lugares, há quem atribua tanto a doença como a cura à intervenção de Deus. Há quem passe pela doença e, na sua visão de fé, a interprete como uma prova e sinal divino que o levem a uma mudança de vida. Há quem, acometido de doença mortal, após gastar todos os bens com médicos, recorra a uma intervenção milagrosa. A ajuda, os cuidados paliativos e a assistência religiosa trarão bem-estar, paz de espírito ao doente, a fim de lidar com sua situação. A cura e a libertação abrangem o cuidado pela pessoa, pelo seu bem-estar físico, espiritual, social, até nos momentos derradeiros da existência.

No contexto cristão, toda cura ou tratamento feito com espírito de abnegação e caridade evangélica têm valor de salvação e são sinais do reino futuro de paz, vida plena, saúde. O processo de cura passa pelos modelos biomédicos da medicina moderna, que, sempre mais desenvolvidos, proporcionam maior longevidade com qualidade de vida. O profissional da saúde tem o compromisso de promover a vida e defendê-la com os recursos disponíveis. Deus fez o médico e o remédio. Mas a graça divina supõe a natureza humana. Deus age não de forma mágica, como se acreditava no tempo de Jesus, quando havia muitos milagreiros. Ele age por meio dos recursos humanos, no desenvolvimento e descoberta de novas técnicas. Todo desenvolvimento humano para o bem e defesa da vida é dom de Deus, pois Deus coopera com aqueles que fazem o bem e promovem a vida. Na comum expressão “graças a Deus”, após bem-sucedida intervenção cirúrgica, o médico atribui sua habilidade a um dom de Deus. Nesse sentido, expressa um significado mais profundo, um sentido espiritual.

Conclusões

  1. Cura e libertação na Bíblia são parte essencial do plano de Deus. Os diversos relatos de cura, tanto no Antigo como no Novo Testamento, são sinais de que o Senhor intervém na história e escuta a súplica dos doentes. A história do povo da Bíblia, como também as de outros povos, com suas histórias de curas, com seus meios terapêuticos, revelam a luta contra as doenças na busca incessante de cura e bem-estar. Ser curado, especialmente nos relatos que analisamos, significa o pleno restabelecimento da pessoa, o resgate de sua dignidade de ser humano e sua reintegração no serviço à comunidade. Os curados tanto proclamam o que aconteceu de bom em sua vida (cf. Mc 5,18-20) como se engajam numa missão e serviço (cf. Mc 1,29-30; 1,43).
  2. A cura e libertação abrangem a pessoa na sua totalidade, pois saúde é bem-estar físico, psíquico, espiritual e social. A cura e salvação da pessoa, no sentido cristão, são mais que o restabelecimento da saúde física: operam na pessoa nova vida, novo sentido, que transcende a vida presente e a projeta na vida eterna. Eis a vida plena de quem crê que transcende a morte. Nesse sentido, para nós, cristãos, se nesta vida cremos que Jesus morreu e ressuscitou, também com ele, na morte, ressuscitaremos para uma vida nova (cf. Rm 6,5.8). A vida nova de ressuscitados já está presente naqueles que vivem neste mundo na fé e na esperança. Paulo diz: “Vocês ressuscitaram com Cristo, por isso busquem as coisas do alto” (Cl 3,1). Isso não significa fuga do mundo, mas compromisso com o projeto de Deus de transformar a vida presente mediante a libertação dos males e doenças. Assim vai acontecendo a transfiguração do mundo, com a diminuição da dor, da doença, do sofrimento.
  3. Curas e libertações acontecem na aplicação dos recursos modernos da medicina, e não apenas na crença de intervenção mágica de milagreiros e exorcistas, como ocorria no primeiro século da era cristã. A fé verdadeira se torna visível na ação e no planejamento. Deus atua na história, na ação do médico e no efeito dos remédios. A graça da cura opera segundo a natureza, seguindo a evolução cultural e científica da humanidade. Deus deu ao ser humano inteligência para descobrir técnicas terapêuticas e novos remédios para fazer frente ao desafio das enfermidades. Deus se revela hoje nos sinais dos tempos. Vemos a intervenção dele no horizonte da teologia da criação.
  4. Jesus curou muitos doentes das mais variadas enfermidades e deu aos discípulos a missão de fazer o mesmo. Inspirados no cuidado de Jesus com os doentes, os cristãos, especialmente os profissionais da saúde, encontram o sentido profundo do cuidado e atenção aos doentes e do exercício da medicina. A mística cristã do cuidado caracteriza-se pela compaixão e pelo modo humano de tratar a pessoa doente.
  5. A cura física é seguida também da cura espiritual, que liberta a consciência do pecado. A cura espiritual inclui o perdão a si próprio, mediante a aceitação da própria condição humana, e o perdão de Deus, que torna a pessoa justa. A experiência da gratuidade divina que cura e liberta transcende a cura física e produz na pessoa bem-estar e paz espiritual vindos de Deus. Nesse nível a fé é fundamental, tanto para quem está doente como para quem trata o doente. Na Igreja primitiva, o cuidado dos doentes era uma preocupação pastoral que certamente seguia a prática dos discípulos de Jesus de orar e ungir os doentes (cf. Mc 6,13). Esse cuidado, que torna presente o gesto curador de Jesus, está na missão da Igreja.

Bibliografia

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[1] Conforme o IBGE, em 2012 a expectativa de vida no Brasil era de 74,6. A última estimativa da expectativa de vida anunciada no Jornal Nacional (1º dez. 2014) é de 71 anos para os homens e 78 para as mulheres.

Vicente Artuso

Religioso e sacerdote da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos; doutor em Teologia Bíblica pela PUC-Rio. Mestre em Ciências Bíblicas (PIB-Roma). Professor do mestrado e doutorado em Teologia na PUCPR- Curitiba, Paraná. E-mail: vicenteartuso@gmail.com