Dom Jaime Spengler, Presidente da CNBB
A democracia exige de todos nós um permanente compromisso com o bem comum. O período eleitoral é um momento importante de escolha e participação, mas a responsabilidade pelo destino do Brasil não começa nem termina nas urnas.
Aos candidatos à Presidência da República, cabe assumir, desde já, um compromisso moral com a verdade, a dignidade humana e as necessidades concretas da população. Independentemente de quem seja eleito, esse compromisso deve orientar palavras, decisões e ações. Governar é servir. A confiança recebida do povo não pode ser colocada a serviço de interesses pessoais, de grupos ou de projetos de poder que se sobreponham ao bem coletivo da nação.
Essa responsabilidade é compartilhada por todos os que integram o sistema de governo do país. Os Poderes da República, em suas diferentes atribuições, e os agentes públicos, em todas as esferas, são corresponsáveis pela construção de uma sociedade mais justa. O respeito à autonomia das instituições deve caminhar com a disposição de cooperar, especialmente no enfrentamento da pobreza, da desigualdade e de tudo aquilo que ameaça a vida e a dignidade do nosso povo.
À população, cabe acompanhar, fiscalizar e participar. O exercício da cidadania exige atenção às decisões públicas, interesse pela vida democrática e disposição para cobrar coerência entre as promessas e as ações. Exige também reconhecer os próprios deveres e contribuir para a solução dos problemas que atingem nossas comunidades.
Não podemos permanecer prisioneiros das vitórias e das derrotas eleitorais. Quando a disputa se prolonga indefinidamente nas relações sociais, a convivência se enfraquece e as necessidades do país ficam em segundo plano. A escolha nas urnas precisa ser respeitada, sem que isso dispense a vigilância democrática, a crítica responsável e a participação de todos.
Precisamos investir na formação da consciência crítica, em ações colaborativas e na recuperação do diálogo. Isso implica aprender a escutar, examinar os fatos e rever posições quando necessário. A divergência faz parte da democracia; a desumanização de quem pensa de maneira diferente compromete a possibilidade de construirmos um futuro comum.
Esse cuidado é particularmente necessário nos ambientes digitais. A defesa da verdade começa também naquilo que cada pessoa decide publicar, comentar ou compartilhar. Verificar informações, recusar a mentira e evitar mensagens que alimentem o ódio são atitudes de responsabilidade moral. Nenhuma preferência política justifica ferir a dignidade de alguém ou disseminar falsidades.
Somos chamados a contribuir para uma cultura do encontro, da fraternidade e da paz. Nossa presença na vida pública deve expressar cuidado com todos, sobretudo com os mais pobres e vulneráveis, cujas necessidades precisam ocupar lugar central nas decisões do país. O Brasil continuará a precisar de todos nós depois das eleições. Que os candidatos e os futuros eleitos tenham consciência da responsabilidade que assumem. E que cada cidadão encontre caminhos para participar, dialogar e colaborar. O bem comum se constrói com instituições responsáveis e com um povo que acompanha, discerne e age.
22/10/2026 
