Roteiros homiléticos

Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 50 - 54

11 de outubro – 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

Um banquete para todos!

1. INTRODUÇÃO GERAL

O banquete que perpassa a primeira leitura e o Evangelho deste domingo é uma parábola da alegria, da festa, do Reinado de Deus. O banquete é manifestação do céu, que já começa aqui, agora, no espaço e no tempo. A mesa da eternidade deve ser antecipada por relações verdadeiramente humanas, fundadas na justiça e no amor. O profeta Isaías apresenta o banquete como promessa divina, como desejo futuro. O Evangelho de Mateus mostra o banquete se realizando, as núpcias acontecendo, e também o convite destinado a todas as pessoas, especialmente àquelas que habitam as “encruzilhadas do mundo”. Mais do que permanecer focado na rejeição de muitos dos convidados, o fundamental é perceber o convite do Pai: “Vinde para a festa”. É nas contradições das experiências da vida, testemunha Paulo, que se pode viver uma confiança sem limites: “Tudo posso naquele que me dá força”.

1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 25,6-10a)

O profeta Isaías anuncia um grande banquete que será preparado pelo Senhor: “de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos” (v. 6). Ao contrário dos banquetes dos soberanos, que escolhiam a dedo quem deles poderia participar, geralmente os organizando para reforçar o poder político e manter os privilégios, o banquete do Senhor é destinado “para todos os povos” (v. 6). Ninguém ficará de fora!

A imagem de uma grande mesa, na qual há lugar para todas as pessoas, é emblemática. Trata-se de uma representação da eternidade, antecipada na fraternidade dos povos, na comunhão entre os irmãos e irmãs, na experiência comunitária de cada dia. Aquilo que Deus vai realizar no banquete revelado pelo profeta, no fundo, é o sonho de uma vida cheia de sentido: “O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra” (v. 8). O ministério público de Jesus, o Filho de Deus, pôs o sofrimento das pessoas no centro da sua ação. Sua sensibilidade pela vida fez que nenhuma lágrima passasse despercebida, nenhum marginalizado fosse indigno de atenção, nenhum pecador tivesse trancada a oportunidade de um novo começo.

O banquete encontra seu ápice na comunhão total com Deus. Não se trata de uma refeição isolada ou fadada a ter um fim em si mesma, mas destinada à alegria eterna de permanecermos bem próximos do Senhor: “vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo” (v. 9).

2. II leitura (Fl 4,12-14.19-20)

São Paulo testemunha sua confiança total no Senhor, não obstante as contrariedades que a vida apresentou: “Tudo posso naquele que me dá força” (v. 13). Tal intimidade com Deus, que Paulo experimentou desde sua conversão, fez que ele vivesse intensamente: na miséria e na abundância, na fome e na fartura, na sobra e na necessidade. O apóstolo viveu tudo por causa de Jesus Cristo e assumiu tudo como uma escola para seguir mais fielmente seu Mestre.

As poucas linhas dessa leitura ajudam a compreender a gratidão com que Paulo acolheu a manifestação e os presentes recebidos da comunidade de Filipos enquanto estava na prisão. O gesto comunitário é como um remédio para amenizar a dor e o isolamento vividos no cárcere. Por um lado, os seguidores de Jesus e pregadores do Evangelho são desprezados e aniquilados em razão do apostolado que realizam; por outro, são presenteados com o amor e a atenção de muitos que foram gerados por eles na vida cristã. Paulo agradeceu tamanha generosidade: “fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades” (v. 14).

3. Evangelho (Mt 22,1-14)

“A Igreja tem de ser um espelho das encruzilhadas do mundo”, dizia o Pe. José Tolentino Mendonça, na capela do Rato, em Lisboa, antes de ser eleito cardeal. Na mesma Lisboa, em julho de 2023, o refrão do papa Francisco, durante a Jornada Mundial da Juventude, ressoava: “A Igreja é de todos, todos, todos!” De fato, no Evangelho, acolhemos mais uma parábola de Jesus: um rei preparou uma grande festa de casamento para seu filho. Com a recusa de todos os convidados, o rei disse aos empregados: “ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (v. 9). Todos foram convidados, bons e maus; a única exigência do rei era “o traje de festa”.

A imagem da festa, do banquete, da comida, da bebida, da mesa, de pessoas reunidas, atravessa toda a liturgia da Palavra deste domingo. São desenhos do cotidiano que formam a cartografia de Deus. Christoph Theobald, um dos maiores teólogos do nosso tempo, refletiu sobre o conceito do “cristianismo como estilo”, segundo o qual ser cristão é uma forma de habitar o mundo, uma maneira de viver o cotidiano, um conteúdo que se vive na prática, no jeito de ser. A festa de Deus é para todos, é a festa da terra e do céu. O “traje” exigido pelo rei não é uma máscara, uma fantasia, senão que a capacidade de ser livre no amor, tal como a experiência nupcial.

“Vinde para a festa” (v. 4) é o convite sagrado! O rei não faz um catálogo de puros e impuros, mas chama a todos, todos, todos! Mais importante do que a resposta de cada convidado – muitos não quiseram ir – é o convite do rei. Esse convite dá a mesma dignidade a cada convidado: todos são importantes, todos são únicos, todos cabem no amor. Deve ser esta a tarefa da comunidade cristã: nunca separar, nunca dispersar, sempre abrir, sempre ser espaço da alegria de Deus.

Nestes dias tão difíceis, em que a humanidade experimenta uma sensação de impotência, encontrando-se sufocada por guerras atravessadas por discursos religiosos, é importante pedir a graça do discernimento e do compromisso de não reproduzir separações, não alimentar o ódio, não propagar disputas, mas “habitar” a veste da humanização, o estilo da reconciliação, que é o melhor caminho para a vida divina, para a vida realmente nova.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O banquete de Deus deve ser antecipado pela decisão de viver relações novas, fundadas na fraternidade e no amor. O papa Francisco recordava, na Carta Encíclica Fratelli Tutti, que

a vida subsiste onde há vínculo, comunhão, fraternidade; e é uma vida mais forte do que a morte, quando se constrói sobre verdadeiras relações e vínculos de fidelidade. Pelo contrário, não há vida quando se tem a pretensão de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte (n. 87).

Na contramão da mesa solitária, Francisco convidava a sonhar juntos: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (n. 8).

Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]