Roteiros homiléticos

Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 54 - 57

12 de outubro – BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DA CONCEIÇÃO APARECIDA

Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

Nossa Senhora, nossa esperança de vida!

1. INTRODUÇÃO GERAL

O dia 12 de outubro faz parte da identidade religiosa do povo brasileiro, que reconhece a presença materna e a intercessão viva de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Nossas comunidades celebram com muitos vivas e muitos aplausos este dia, em que recordamos a Mãe de Jesus, a Virgem Maria, a qual não se esqueceu dos pescadores do rio Paraíba do Sul e marcou sua aparição “aos pedaços”, para repartir o sofrimento daquele povo e garantir que nunca mais sairia do seu coração.

A liturgia da Palavra da solenidade da Bem-aventurada Virgem Maria da Conceição Aparecida vai buscar na rainha Ester e no “desejo de vida” o fundamento teológico da presença de Maria no meio da comunidade cristã. Ao apontar sempre para seu Filho, Jesus, Nossa Senhora permanece muito atenta aos sinais, às nossas “talhas vazias”, para sempre de novo recordar: “Fazei o que Ele disser”. Nossa Senhora Aparecida possibilitou redes cheias de peixes, assim como o “vinho novo” de Caná da Galileia

1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Est 5,1b-2; 7,2b-3)

“A vida do meu povo – eis o meu desejo” (7,3) é o pedido nascido do coração de Ester, a jovem judia que vivia no exílio da Mesopotâmia e encontrou graça diante do rei Assuero, o qual se apaixonou por ela e a escolheu como esposa. Estava em curso uma trama de Amã – um homem muito poderoso do reinado –, que buscava a todo custo aniquilar o povo judeu. Amã odiava Mardoqueu – que havia criado Ester como filha – porque este se recusava a ajoelhar-se diante dele.

Ao descobrir as artimanhas de Amã, Ester ficou muito angustiada, por causa do risco que seu povo corria. Ela se utilizou, então, da sua beleza, como indica o início da leitura, e se aproximou do rei, que ficou encantado: “olhou para ela com agrado” (5,2). Assuero prometeu dar a Ester o que ela quisesse, até “a metade do [...] reino” (7,2), ao que a rainha respondeu, manifestando o pedido de salvação do povo judeu. O rei acolheu o pedido de Ester, o povo se salvou e Amã, cuja artimanha havia sido revelada, foi condenado à morte.

O livro de Ester é uma novela e sempre foi um texto muito querido pelo povo de Israel. Apresenta a força dos pequenos, dos humilhados, e, ao mesmo tempo, mostra como aqueles que organizam as maldades e perversões sempre vão esbarrar na força de Deus e na organização dos pobres. Ester, mulher forte, utilizou tudo o que tinha em favor da vida das pessoas. Ela é sinal de beleza, de inteligência, de articulação, que devem sempre estar na direção do compromisso com a vida.

2. II leitura (Ap 12,1.5.13a.15-16a)

Uma mulher e um dragão protagonizam a cena do trecho dessa leitura do livro do Apocalipse. De um lado, a fragilidade, a pequenez da mulher que acabara de dar à luz; de outro, a potência, a grandiosidade do dragão, que utiliza sua força para destruir e perseguir.

O livro do Apocalipse, escrito por volta do fim do primeiro século, descreve as situações que as primeiras comunidades cristãs da Ásia Menor estavam vivendo. O cenário é desolador: muitos estavam sendo perseguidos, aniquilados, destruídos pela força do Império Romano. O dragão e a serpente são o símbolo desse mal, da força que trabalha na contramão de Deus. A força do mal, no entanto, não consegue ter a palavra definitiva, porque é o menino – o Cristo – “que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro” (v. 5).

A mulher é sinal da comunidade cristã. É verdade que a imagem descrita – “uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (v. 1) – pode logo ser relacionada a Maria; no entanto, o texto do Apocalipse indica, sobretudo, a força das pequenas comunidades, que devem vencer a tentação do medo e confiar que Deus está ao seu lado: “a terra, porém, veio em socorro da mulher” (v. 16).

3. Evangelho (Jo 2,1-11)

O Evangelho de João diz que Jesus realizou sinais. Prefere empregar essa linguagem a falar de “milagres”. Os sinais apontam para uma dimensão maior do que aquilo que se pode ver. O Evangelho desta solenidade de Nossa Senhora apresenta, em Caná da Galileia, o primeiro sinal de Jesus. Serão, ao todo, sete.

O sinal de Jesus foi realizado durante uma festa de casamento em que também estavam presentes sua mãe e os discípulos (v. 2). Aconteceu que, durante a festa, o vinho terminou. Uma festa sem vinho era uma festa fracassada. Maria logo percebeu e foi dizer a Jesus: “Eles não têm mais vinho” (v. 3). O cenário da festa de casamento (imagem da festa humana) que não tem mais vinho (imagem da alegria) indica a situação de uma humanidade que perdeu a esperança, que perdeu o sentido da vida. Havia muita força contrária à felicidade das pessoas. A sensibilidade de Nossa Senhora era muito genuína e forte. Maria percebeu que o povo estava necessitado de um “vinho novo”, de um vinho “muito melhor” do que aquele que costumava beber, e, para suprir essa necessidade, ela também indicou o caminho: “Fazei o que ele vos disser” (v. 5).

Não foi o mestre-sala, o responsável pela festa, quem “resolveu” a falta de vinho. Maria entendeu que aquela situação precisava da intervenção de Jesus. Outro detalhe evidencia a causa da “falta de alegria” das pessoas: havia seis talhas no pátio do local onde ocorria a festa (v. 6). As talhas de água eram para a purificação das pessoas, um gesto piedoso de quem queria ficar “puro” diante de Deus. As talhas estavam vazias, e Jesus transforma aquelas talhas de água em talhas de vinho. O ritualismo exterior não estava ajudando as pessoas a viver felizes. As talhas precisam de Jesus, os ritos precisam de Jesus, uma denominada pureza sem Jesus não faz sentido. É ele o vinho novo, a vida nova!

Os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, em 1717, no rio Paraíba do Sul, fizeram a experiência da presença e da sensibilidade de Maria, a Mãe Aparecida, no meio da angústia da pesca. A mesma Mãe que está muito atenta às necessidades dos filhos. “Eles não têm mais vinho”, “eles não têm mais alegria”, “eles não têm mais esperança” é a prece simples de Nossa Senhora, que sabe, como mais ninguém, que nossas “talhas” precisam de Jesus, o “vinho novo” da nossa humanidade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A celebração de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos insere na festa de Caná da Galileia, naquele “terceiro dia”. Nascemos para ressuscitar, e a ressurreição é a graça contida nas “talhas cheias de vinho”, símbolo maior da alegria e do amor! Esta é a festa que a presença de Maria torna possível: nossos vazios, nossos silêncios, nossa pequenez são assumidos e conduzidos na direção de Jesus. “Fazei o que ele vos disser” são as primeiras e as últimas palavras de Maria no Evangelho de João. Todas as nossas palavras devem servir para aproximar nossa humanidade do coração amoroso do Senhor!

Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]