Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2021 - ano 62 - número 339 - pág.: 52-54

SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO – 3 de junho

Por Izabel Patuzzo

Alimento do cristão

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia desta solenidade nos oferece a possibilidade de conhecer a espiritualidade da Aliança na sua origem veterotestamentária e sua aplicação no sacramento da Eucaristia. A primeira leitura nos lembra que Israel experimentou seu Deus como Aquele com quem tinha uma aliança. Moisés foi o grande mediador dessa aliança, em vários momentos, como na promulgação da Lei no Sinai e nos sacrifícios de animais oferecidos com aspersão de sangue no altar; este era um sinal de que Deus e o povo estavam unidos pelo mesmo sangue.

A plena realização desse modelo de aliança ocorre em Jesus Cristo. Em seu sangue derramado na cruz, foram unidos Deus e seu novo povo. As palavras da Nova Aliança foram pronunciadas no contexto da última ceia: “este é o cálice do meu sangue, que é entregue por todos vós”. Também o pão partido e distribuído se transformou em sinal sagrado daquele que se doaria por seus irmãos até o fim. É a Nova Aliança. Deus novamente unido com seu povo, já não por laços de amizade, mas pela própria vida do Filho, doada em corpo e sangue.

A tradição cristã interpretou, de forma simbólica, o sangue e a água jorrados do lado de Jesus, transpassado pela lança. Entende-o como o nascimento da Igreja, a partir de seu lado aberto. A água evoca o batismo, e o sangue, a Eucaristia: dois sacramentos basilares do discipulado cristão. O batismo compromete o discípulo com o projeto de Jesus, de modo a assemelhá-lo ao Mestre no pensar e no agir. A Eucaristia confronta o discípulo com o mistério cristão e o leva a renovar o compromisso na fidelidade, mesmo devendo passar pela paixão e morte de cruz.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1. I leitura (Ex 24,3-8)

No Sinai, Deus apareceu para concluir a aliança com seu povo: Ele oferece aliança, o povo se dispõe a observar suas instituições. Antes da leitura do documento da Aliança, Moisés asperge, com o sangue da Aliança, o altar, sinal da presença divina; depois da leitura, asperge o povo. Esse gesto significa a comunhão do povo escolhido com o Senhor. O povo escolhido se compromete com palavras a manter a Aliança: “Faremos tudo quanto nos disse o Senhor” (v. 7). Assim, essa aliança, celebrada com sangue de animais, selava o compromisso de obediência por parte de Israel, que reconhecia todos os benefícios recebidos no deserto, rumo à Terra Prometida.

A celebração anual é um meio de manter viva na memória a escolha amorosa de Deus; em resposta à predileção divina, os rituais são estabelecidos para perenizar a história de libertação e marcar que, dali em diante, Israel pertence ao Senhor. Não é o sangue que salva, mas o que ele representa. No sacrifício da Aliança, somente animais podem ser vítimas, porque a intervenção poderosa do Deus da Aliança retirou Israel de uma situação de morte para levá-lo a uma vida digna, de proximidade com ele.

2. II leitura (Hb 9,11-15)

A carta aos Hebreus ressalta constantemente a plenitude do sacrifício e do sacerdócio de Jesus; ele é o verdadeiro sumo sacerdote, pontífice, o mediador entre Deus e a humanidade que não recorre a subterfúgios, como sangue de animais, incapazes de substituir sua doação plena na cruz. Jesus ofereceu-se a si mesmo em um único e definitivo sacrifício. Seu sangue derramado teve como único fim reconciliar a criatura humana com Deus, e esse ato já não precisa ser repetido. Assumindo a rejeição, passando por morte violenta e perdoando, em nome de seu Pai, toda incredulidade e ódio, Jesus se torna o mediador da Nova Aliança. Impelido pelo Espírito Santo, entrou no santuário livremente, mediante o sacrifício de seu sangue, pelo qual todos fomos purificados. Para os cristãos, ele é o sacrifício e o sacerdote ao mesmo tempo.

A mensagem dessa carta apostólica é que o culto da Antiga Aliança foi substituído pelo sacrifício de Jesus e, portanto, os cristãos não devem abandonar a vida cristã. Assim como o sumo sacerdote, no Antigo Testamento, tinha direito de acesso ao Santo dos Santos por carregar o sangue dos animais, a vida de Jesus, oferecida em sacrifício, dá-lhe o direito de acesso ao santuário celestial. A ênfase está no sacerdócio eterno de Jesus, em contraposição ao sacerdócio transitório do AT; ressalta-se a eternidade do sacrifício único de Jesus, em contraposição aos sacrifícios de animais repetidos pelos sacerdotes no dia da expiação. Jesus, como vítima sem mancha, redimiu toda a humanidade por sua oferta na cruz.

3. Evangelho (Mc 14,12-16.22-26)

Os sinóticos caracterizam a última ceia de Jesus com seus apóstolos como a refeição pascal, celebrada pelo Senhor em antecipação dos acontecimentos que estão para se cumprir. O sentido dessa refeição está nas próprias palavras de Cristo: seu corpo e seu sangue doados por todos como sacrifício da Nova e Eterna Aliança. Na perspectiva teológica do evangelista Marcos, Jesus celebra a última ceia pascal no primeiro dia dos Pães Ázimos, quando se imolava o cordeiro. O relato põe em evidência que é o próprio Jesus quem orienta os discípulos e prepara sua páscoa, na qual se realiza a plena libertação, a Nova Aliança no seu sangue.

Marcos tem o cuidado de inserir, como pano de fundo da ceia pascal de Jesus, o texto eucarístico transmitido pela tradição litúrgica. Dessa maneira, no tocante às palavras de Jesus sobre o pão e o vinho, tem-se a certeza de que foi conservado seu sentido genuíno, graças ao testemunho vivido de toda a comunidade cristã. Jesus, como mestre e guia de seu grupo de discípulos, preside a mesa e, portanto, pronuncia a bênção ou oração de agradecimento sobre o pão, antes de distribuí-lo aos convivas. Ele, contudo, dá um sentido novo àquele gesto ritual. Seus amigos estavam acostumados a comer juntos com Jesus, mas, na sua experiência de vida junto a ele, conheceram momentos em que a refeição tinha assumido um significado novo. Na véspera de sua morte, não eram necessárias muitas palavras, mas o essencial: “Isto é o meu corpo, que é doado por vós”. Ele se doa totalmente, antecipando o gesto de doação plena que acontecerá na cruz.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A fé da Igreja na presença do Senhor ressuscitado no mistério da Eucaristia remonta à origem das primeiras comunidades cristãs. O Evangelho de Marcos nos dá, nesta liturgia, um dos relatos da instituição da Eucaristia. A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo foi instituída há mais de oito séculos, numa época em que se comungava pouco, pois muitas comunidades estavam tendo dúvidas acerca da presença real do Senhor na Eucaristia. Jesus, nessa ceia, compromete-se radicalmente, suas palavras durante a ceia levam ao cumprimento pleno do que anunciam. O sacramento da Eucaristia é alimento de nossa doação e serviço aos irmãos? A Eucaristia é vital para nossa vida de fé?

O gesto levado à plena realização por Jesus é também chamado de ação de graças. Por conseguinte, a Eucaristia é muito mais que um banquete, constitui precisamente o memorial da Páscoa de Jesus; não é apenas uma recordação ou lembrança, mas para nós, cristãos, tem o sentido de participação no mistério da sua paixão, morte e ressurreição e de comunhão profunda com ele. Comungar o corpo e sangue do Senhor é comungar de sua missão de servir e doar a vida. Ele mesmo garantiu: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna” (Jo 6,54); isto é, participamos de sua vida quando entramos na mesma dinâmica e espírito de sua proposta de salvação.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: [email protected]