Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 48 - 50
4 de outubro – 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
A vinha de Deus e os bons frutos
A imagem da vinha atravessa os textos sagrados deste domingo. A vinha fértil, amada e cuidada pelo proprietário contrasta com as “uvas azedas” de quem não consegue traduzir o amor recebido na prática cotidiana de amar. Ao contar a parábola dos vinhateiros violentos, Jesus denuncia a dissimulação das autoridades judaicas que oprimiam o povo e se achavam “donas da vinha”. A vinha é de Deus, e nós somos seus colaboradores. Trata-se de configurar a vida nova apontada por São Paulo, que enumera as qualidades específicas a serem cultivadas por aqueles que formam a comunidade dos discípulos de Jesus.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 5,1-7)O trecho da profecia de Isaías se assemelha a um canto de amor, dividido em estrofes que apresentam tensão e harmonia. De fato, a leitura se inicia evocando a imagem do “amigo do esposo” – a forma como o profeta se apresenta – por meio da parábola da vinha fértil: “Um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar; esperava que ela produzisse uvas boas” (v. 1-2). É interessante ressaltar os verbos utilizados pelo proprietário da vinha: cercar, limpar, plantar, edificar, construir, esperar.
Logo a decepção apareceu. Em vez de produzir uvas boas, a vinha “produziu uvas selvagens” (v. 2). A desilusão veio em forma de questionamento: “O que eu poderia ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” (v. 4). O lamento do proprietário se assemelha bastante ao desapontamento de alguém que amou muito e não teve seu amor correspondido. Os verbos que acompanham a decisão de abandonar a vinha também são fortes: desmanchar, devastar, derrubar, pisotear, deixar... O proprietário não conseguiu mais esperar pelas uvas boas. Esperar se tornou uma frustração.
A imagem da vinha que não produziu uvas é, certamente, simbólica. Trata-se do povo de Israel, resgatado e cuidado por Deus qual vinha sagrada. Os frutos esperados por Deus eram as boas obras, a escolha do caminho do bem e da fidelidade à aliança; no entanto, o que apareceu foi sangue, ódio, divisão, mentira, falsas acusações a Deus, vida religiosa apegada a exterioridades e ritualismos, verdadeiras “uvas azedas”: “eu esperava deles frutos de justiça – e eis injustiça; esperava obras de bondade – e eis iniquidade” (v. 7).
2. II leitura (Fl 4,6-9)
Como a videira está unida aos ramos, São Paulo recorda à comunidade de Filipos que o seguidor de Jesus deve permanecer unido a Ele na oração: “apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (v. 6). A oração é o elã, aquilo de mais consistente que pode sustentar a fé e guiar no caminho da vivência da Palavra de Deus.
Ao permanecerem unidos a Cristo, sustentados pela intimidade da vida de oração, os cristãos configuram um novo estilo de vida. São Paulo enumera algumas das “qualidades” que marcam a nova identidade do seguidor de Jesus: “ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor” (v. 8). Não é fácil assumir essas atitudes, possíveis apenas se estamos bem unidos a Cristo.
De fato, o testemunho, a coragem e a autenticidade de São Paulo só podem ser compreendidos à luz do Evangelho de Jesus Cristo, que o apóstolo buscou viver e comunicar, tornando-se – para aquela comunidade e para nós – um modelo fundamental para a vivência da fé.
3. Evangelho (Mt 21,33-43)
Deus criou o mundo como um jardim, na harmonia, na conexão, no equilíbrio (Gn 1). De fato, o jardim, no Cântico dos Cânticos, é onde se dá o encontro do amado e da amada – portanto, é o lugar do amor. No Evangelho de João, Maria Madalena vai ao túmulo para ver o corpo de Jesus morto, sem saber da ressurreição, e, na entrada, confunde Jesus com um jardineiro (Jo 20,11-18). Jesus é o jardineiro da nova criação! A vinha é o projeto, é o jardim que Deus sonhou.
O Evangelho deste domingo retoma a parábola contada por Jesus sobre um proprietário que plantou, cuidou e arrumou tudo, para que sua vinha tivesse todo o necessário para produzir uvas boas, e, em seguida, confiou-a a alguns vinhateiros. Aconteceu que, no tempo da colheita, como estava distante, esse proprietário enviou seus servos para recolher os frutos, mas os vinhateiros os receberam com violência: apedrejaram alguns e assassinaram outros. O dono da vinha aguardou com paciência e, mais adiante, enviou outros servos, que foram recebidos com a mesma violência. Por fim, fez uma última tentativa: enviou seu filho para, com a autoridade de herdeiro, buscar os frutos. Também o filho foi morto.
Jesus contou a parábola aos doutores da Lei e aos chefes dos sacerdotes, ou seja, ela era direcionada a um grupo que se achava acima de todas as normas, com autoridade sobre todas as “vinhas”. A vinha é do Pai, e todos somos colaboradores. Ninguém é dono! A parábola retoma toda a história de Israel: os profetas foram enviados para resgatar a vinha perdida, e, depois, também Jesus, o Filho amado. Todos foram mortos pelas autoridades, que trabalhavam para sustentar o próprio poder.
Tudo que vivemos faz parte de um grande plano de amor, de uma grande vinha sonhada por Deus. A vinha convida ao equilíbrio do cuidado, à tarefa de fazer da vida uma “uva boa”. Os frutos bons não são atitudes isoladas, mas dependem do jardim inteiro, de uma conexão de vidas, de uma rede na qual é possível reconhecer Deus passeando no vento fresco de cada tarde (Gn 3,8).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A imagem da vinha nos convida a aprofundar a vida cristã naquilo que significa produzir “uvas boas”. A fé exige a prática da fé, a configuração de um estilo de vida. Qual é a qualidade da “uva” que eu sou? Que tipo de frutos minha comunidade está produzindo? A vivência da fé não pode ser confundida com ativismo. Como estou permitindo que Deus me ajude a produzir frutos para seu Reino? Quais espaços estou abrindo para que Deus possa trabalhar na vinha que eu sou?
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]

