Roteiros homiléticos

Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 61 - 64

25 de outubro – 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

O primado do amor!

  1. INTRODUÇÃO GERAL

A última frase escrita por Dante na Divina comédia ajuda a entrar na liturgia da Palavra deste 30º Domingo do Tempo Comum: “L’amor che move il sole e l’altre stelle”. A escrita em toscano, similar ao que se conhece hoje como a língua italiana, pode ser traduzida por “o amor que move o sol e as outras estrelas”. O sumo poeta, depois de conhecer os territórios do Inferno e do Purgatório e de experimentar a esperança do Paraíso, finaliza com uma espécie de dança cósmica, em que tudo converge para o amor, sem o qual nada pode aproximar-se de Deus. O amor é, de fato, o centro de tudo! O Evangelho vai recordar esse movimento contínuo, permanente e inseparável: o amor a Deus e o amor aos irmãos. Por isso, o amor não deve ser uma teoria, um conceito abstrato, mas deve ser vivido na atenção aos mais frágeis, “os estrangeiros, os órfãos, as viúvas e os pobres” de cada tempo e de cada lugar. Como a comunidade de Tessalônica, essa experiência se realiza na alegria e nas dificuldades, nas contradições de cada dia.

1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

2. I leitura (Ex 22,20-26)

O trecho dessa leitura está dentro do chamado “Código da Aliança”, uma série de preceitos ético-sociais que tornavam bem prática a vivência do Decálogo, as “Dez Palavras” entregues por Deus a Moisés, que estabeleciam o fundamento do estilo de vida dos israelitas com Javé e com os irmãos da comunidade.

O código evidencia três categorias de pessoas “abandonadas” que merecem atenção privilegiada: 1) os estrangeiros; 2) os órfãos e as viúvas; 3) o pobre que precisou pedir dinheiro emprestado. Todos carregavam o peso de não ter defesa, de viver no pleno abandono e na solidão. A comunidade deveria ser, para eles, o refúgio e a fortaleza.

“Não oprimas nem maltrates o estrangeiro” (v. 20). O código se abre com a consciência de que também o povo israelita foi estrangeiro no Egito. Viver distante da pátria, da família e da cultura pode ser extremamente violento para uma pessoa, dado que seu quadro de referências fica muito frágil. O preconceito e a intolerância se tornam pesos ainda maiores para uma situação já bastante difícil.

“Não façais mal algum à viúva nem ao órfão” (v. 21). Nenhum mal, nenhum peso a mais do que aquele que já têm de carregar, é o mandato de Deus. De fato, os órfãos e as viúvas viviam a situação do abandono total do marido e do pai. Em uma sociedade patriarcal, tal condição era a pior possível, porque não restava nenhuma proteção. Deus é o único defensor, por meio da prática da comunidade.

“Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao teu lado, não sejas um usurário, dele cobrando juros” (v. 24). Muitas pessoas precisavam de ajuda por causa dos altos impostos ou das tragédias no campo, que não possibilitavam a produção e a sobrevivência. Esses pobres se tornavam presas fáceis de especuladores, que buscavam o lucro na necessidade das pessoas. A comunidade não pode entrar nessa dinâmica de injustiça e de corrupção, a fim de manter a aliança com Deus.

2. II leitura (1Ts 1,5c-10)

São Paulo faz grande elogio à comunidade de Tessalônica, que, por meio da vivência da fé, fez o testemunho do seguimento de Jesus Cristo ultrapassar as fronteiras geográficas: “a partir de vós, a Palavra do Senhor não se divulgou apenas na Macedônia e na Acaia, mas a vossa fé em Deus propagou-se por toda parte” (v. 8). A causa dessa experiência é a abertura da comunidade ao Senhor: “acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo” (v. 6).

Na origem de uma boa comunidade está a disposição de se deixar conduzir pela Palavra de Deus. Não se trata somente de confrontar ideias, mas sobretudo de acolher o Espírito Santo, que conduz por lugares inimagináveis. De fato, apesar do sucesso dessa comunidade, não se pode esquecer que ela passou por momentos muito fortes de hostilidade e de perseguição. A evangelização nunca é tranquila, sempre provoca e desestabiliza determinados grupos, que se sentem ameaçados à medida que se estabelece a pessoa humana como fundamento do cuidado e do amor. A comunidade cristã cresce no paradoxo.

3. Evangelho (Mt 22,34-40)

No último domingo, acompanhamos uma controvérsia entre os fariseus e Jesus sobre o tema dos tributos. No Evangelho deste domingo, aparece outra controvérsia, que diz respeito ao maior mandamento da Lei. Os diálogos que os fariseus buscavam estabelecer não eram para tentar buscar pontos de convergência, mas para acusar e desmoralizar Jesus. Carregavam as ofensas prontas.

Na tentativa de pôr em prática o Decálogo, os doutores da Lei, que se achavam os maiores detentores da moral e dos bons costumes, tinham multiplicado uma série de preceitos, de códigos, de proibições, a ponto de já não se saber o que era essencial e o que era secundário. Para Jesus, o mais importante não era a discussão sobre “o mais importante”, e sim sobre o sentido da Lei e sobre aquilo que fundamentava todo o estilo de vida que Deus tinha revelado a Moisés.

O amor a Deus e o amor aos irmãos e irmãs estão no fundamento de tudo que vem depois. Nada resiste sem amor: “Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (v. 40). Jesus não era apegado aos preceitos, não permaneceu na superficialidade das normas nem nunca desistiu de anunciar um amor vivido na prática, na sensibilidade para com a vida das pessoas, especialmente os mais sofridos. Amar a Deus, como fez a comunidade de Tessalônica, significa abrir-se à sua Palavra. Amar os irmãos e irmãs significa não invisibilizá-los, mas estender-lhes a mão e emprestar-lhes a voz.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O verbo “amar” aparece, no Evangelho, conjugado no futuro: “Amarás”. Nosso futuro depende da capacidade de amar, da qualidade do amor. No meio das guerras, dos conflitos, das divisões dentro da comunidade cristã, estamos sempre mais próximos da morte. A ameaça ao futuro é forte denúncia de que o amor está sendo deixado de lado. O abandono do amor pode encontrar uma compensação no apego frio às normas exteriores. De fato, os fariseus não estavam preocupados com a vida das pessoas, mas em manter seus privilégios e seu olhar reduzido. O risco de uma vida apequenada, fechada em ideias inquestionáveis, é consequência do fechamento ao amor, do apagamento de um futuro melhor. A primeira reação é abrir os olhos, identificar “os estrangeiros, os órfãos, as viúvas, os pobres” do nosso tempo, para amá-los a ponto de permitir que sejam questionados todos os nossos julgamentos.

Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]